terça-feira, 7 de dezembro de 2010

o baile de fim de ano


Com a idade chegando, se você prestar atenção, além de um insistente fio de cabelo branco que surge a segundo segundo, ao acordar verá que a madrugada fez um novo serviço no seu rosto, além das bolsas de carne embaixo de seus olhos. Tenha coragem, e olhe-se no espelho sempre ao acordar. Verá um Tempo bordador que faz coisas criativas na sua face, lhe transformando numa caricatura. Esse Tempo é bastante bem-humorado, e lhe estraga, com desvelo, a rosto e o corpo a cada dia. Prepare-se para o grande encontro de fim de ano com os amigos que não vê há vinte, e depois tente descrever esse encontro talvez como Proust o fez num de seus volumes de Em busca do tempo perdido. Um detalhe: não se atente apenas para os outros, seja cruel consigo: desenha sua nova figura. E também não vale o botox; encontre os outros, de preferência, com a cara limpa, um mero batom nos lábios, que caíram um pouco, já notou isso? Não tem problemas, seu sorriso talvez ainda se sustente, belo e maduro e triste e sábio. O cabelo, sempre longo, a despeito dos amigos dos vinte anos continuarem achando que cabelo grande não é para mulher de quarenta, pois a envelhece mais ainda. Se você quiser chocá-los, não o hidrate, deixe-o como o cabelo da medusa. Meu conselho: assombre esse povo besta. Você sabe, né, que eles irão para esse encontro com bastante capricho. E muitos exclamarão como fulana está bem, apesar dos três filhos; outros não dirão nada e cravarão os olhos nos seus pés de galinha com imensa dó, e dirão, no mais autêntico clichê, que o tempo passa. Para compensar o constrangimento, peça aquela velha música da década de 80; e saia bailando sozinha, sozinha pelo salão que desmorona, com seus cabelos assombrosos de medusa e suas mãos de Sísifo.


Imagem: "Medusa". In: www.google.com.br

11 comentários:

Chorik disse...

Não vou a esses encontros nem amarrado. Diriam certamente que o que era feio ficou pior, sabe-se lá por meio de que macumba.
Mas o mais dolorido seria destruir aquela paixão platônica, causa de sonhos impublicáveis, substituindo a lembrança do rosto da eterna princesinha da escola pela cara de uma ogra.

Chorik disse...

Aero, agora falando sério, danem-se as aparências delineadas pelo tempo. Abaixo a plástica, a maquiagem e o photoshop. Vivamos de cara limpa, e quem achar ruim a gente lança um feitiço, talvez façamos virarem pedra mesmo.

Bernardo Guimarães disse...

por essas e outras não vou nem amarrado aos encontros de turma; não dá pra encarar as antigas desejadas coleguinhas com os netinhos agarrados na saia comprida...
como diz chorik, falando sério, só não envelhece quem morre cedo! só não vale envelhecer a alma.

Lidi disse...

É... "o tempo passa". (risos)
Bjs, Aero.

P.S: Os seus cabelos são lindos!

Maria Muadiê disse...

"Blade Runner Waltz"

Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles,
dançamos ao luar, ao som da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo
como antigamente
Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos, minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.

LEMINSKI

Moniz Fiappo disse...

O tempo realmente é implacável,(conhecí uma mulher que aos cinquenta e tal deixou de se olhar no espelho), mas adoro ver a cara das pessoas me olhando e vendo em mim aquilo que estou vendo nelas mas nem ligo. Vou juntar coragem para no próximo bailar sozinha...

Gerana disse...

Grande texto, amiga. É isso aí.

Banho Veneno disse...

Hoje acordei mais cedo que de costume e fui comprar pão na padaria ao lado. Enquanto subia no elevador acopanhado por uma adorável velhinha ela me disse que o pior de envelhecer era sentir dor por todo o corpo. Tudo dói, dizia ela. Depois não se consegue mais fazer atividades simples em pouco tempo, somos limitados pela idade dos ossos. E ela disse ao final, antes de sair que ainda não descobriu o prazer da idade madura, talvez não exista...Ao fechar a porta ela disse que estava feliz por ver todos os dias o sol bater na sua janela... Talvez envelhecer tenha esse sentido: ver o sol bater na janela nos avisando que estamos vivos.

maray disse...

já fui a um encontro desses de turma. De colegas que não via há 30 e poucos anos. Foi bom. Vou no próximo, se estiver por aqui. Daqui há mais 30 anos. Porque encontro de turma é bom assim: de 30 em 30. ;)

Quanto a envelhecer, sabe de uma coisa? Fui uma garota sedentária. Fazia política 30 hs por dia e não tinha tempo pra mais nada. Agora que sou saxagenaria, tornei-me uma velha adolescente: danço pelo menos 3 vezes por semana e faço trilhas e academia. Então melhorei muito! Foi legal ter feito o caminho inverso!

um abração!

Marcantonio disse...

Sutilmente cruel. Sutil? Texto-sala-de-espelhos do tipo: estou falando de mim, estou falando de você, estou falando de todos nós. Só mesmo o alheamento no meio do salão; não ponho panos quentes no envelhecimento. Não mordo e assopro. É uma droga mesmo. Sísifo ao menos se esforça eternamente. O problema é haver um topo, uma curva depois da qual a pedra (e todo o resto) rola pela ladeira oposta. Já chegou a ver a sequência dos auto(-)retratos de Rembrandt?

Abraço.

Nilson disse...

Escancaradamente belo: como sempre!!!