domingo, 5 de dezembro de 2010

conversa de professora


Amo a minha profissão. Isso é definitivo. O que não amo são todas as coisas que a ligam à famigerada burocracia. Tudo seria mais fácil se não houvesse reuniões, salas administrativas, cadernetas, notas, e um arsenal de guerra que faz da educação um combate condicionado a quem perde e a quem ganha. Tudo seria mais verdadeiro e prazeroso se não houvesse burocracia no ensino. O aluno chega à escola já preparado para a guerra; e tem que se munir com seus instrumentos: mão em riste para assinar a folha de frequência; decoreba no juízo para responder à prova e, consequentemente, tirar uma nota para passar; traquejo no corpo para sair da aula à francesa, por não suportar mais as grades de uma sala compacta, branca, preparada para o seu aprisionamento diário... Oh, por que não podemos dar aula embaixo de uma árvore, numa esquina da rua, na praça do bosque? Oh, e para que a miserável da prova, quando tudo seria mais espontâneo e fácil com uma conversa sem algemas, uma interlocução de ideias, uma troca? E para que a miserável da nota, que faz do aluno um soldado de guerra, pronto para tentar sobreviver? Como, pergunto a vocês, como mudar tudo isso, descondicionar o que está condicionado, permitir o relaxamento dos alunos sem que eles debandem e lhe deixem sozinho? E quanto a mim, como livrar-me das reuniões, das salas administrativas, das cadernetas? Como, meu Deus, poder amar sem registros burocráticos, e abraçar meus alunos como pessoas humanas, lindas e tristes? E bailar com eles, destruindo os corredores frios das instituições e, ainda, essa terrível humilhação de ter que obedecer o que nos é imposto?

8 comentários:

Katia disse...

Pois é, Aero. As dores e as delícias de ser professor, nesse país! Eu tb, professora (de alfabetização) sou, entretanto, privilegiada, pois ensino num espaço que comunga com essa liberdade e ainda pode salvaguardar (a nós e a eles - alunos), a possibilidade de comungar prazer, alegria e deleite com conhecimento, ensino e aprendizagem. Marcus Gusmão -Licuri - como pai dessa escola, é testemunha disso!
Mas, professoras do seu quilate, fazem a diferença, neste contexto aprisionante.

Anônimo disse...

Uma educação extramuros. Do jeito que estar, só faremos a diferença na hora de escolher a cor da caneta para aplicarmos a mal-fadada nota. Aquele abraço, belo e visceral depoimento.

Bernardo Guimarães disse...

tome coragem, junte mais umas três iguais a vc e funde uma nova escola; pode ser "escola aeronautica" e ensine livremente os meninos a voar, voar, voar. depois me dê o endereço preu matricular Iara.

Chorik disse...

Ah minha amiga, me perdoe, não pretendo concorrer em tristeza, mas imagine a minha profissão, que é só burocracia, reuniões e planejamentos, avaliações de desempenho, busca de resultados, e demissões aos "maus alunos".

Nilson disse...

Você driblou as teorizações sobre educação e foi ao ponto. Deu vontade de ser professor dessa sua escola hipotética para quase adultos - assim como da pré-escola onde Kátia ensina!

Maria Muadiê disse...

socooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrroooooooooo

Maria Muadiê disse...

PS: me candidato a Escola Aerounata.

Professora Flávia Beatriz disse...

A burocracia me incomoda muito, ainda mais quando serve para forjar números e sucesso. O controle administrativo de nossos alunos deve ser feito para que nós mesmos nos organizemos, sabermos e medirmos o seu crescimento, contudo as nossas aulas não podem se tornar vítima da burocracia.
Não somos mais educadores, nos transformamos em apaziguadores de corpos.
Sigo preocupada e com vontade de mudar.