quinta-feira, 13 de setembro de 2012

orfandades


Algumas pessoas têm uma rima podre (nem pobre é mais) para casamento. Nem vou dizê-la aqui. Basta pensá-la, não é preciso pronunciá-la. Tal palavra fede. Borrifemos alfazema nela, pois. E prossigamos. Casamento não é coisa fácil. Dividir nosso precioso espaço com alguém é algo heróico. O mais difícil acredito que seja dividir a cama. A gente não poder se esparramar toda na cama já é o primeiro muro; que na verdade é um muro humano - o outro, todo de cimento. Abraça-se o muro, uma solução afável, mas nunca naqueles dias em que você quer ser completamente só no mundo. Nos dias de tpm da mulher, o que ela mais deseja é matar quem está perto. Tenho uma conhecida que começou a tomar ódio do marido numa das tpms. Só que esta se estendeu em dias normais, até ela não aguentar e pedir o divórcio. A ira cresceu porque a mesma descobriu - depois de mais de dez anos de casados - descobriu que o marido tinha um gominho no pescoço. Toda vez que ela olhava o gominho sentia uma raiva, uma vontade louca de decepar o gominho e, de quebra, o pescoço inteiro do homem. E aí foi tomando ódio do corpo todo do dito cujo, da maneira dele conversar, dos gestos, da bunda, dos pés... Então, como não podia matá-lo, todo hora era uma briga, até não suportarem mais o clima de guerra constante e se separarem.
Pois é, tudo pode começar com a descoberta de um gominho.
Mas há coisas boas sim, no casamento. Ah, aquela companhia certa lhe esperando em casa para um café e dois dedos de prosa boa; ah, um cafezinho pronto trazido na cama naqueles dias em que você está tão triste, tão triste; um beijo, um afago, um chamego, a compreensão, uma flor do mato trazida enrolada numa fita aproveitada de um presente recebido... Até o miojo fica gostoso quando o intento é lhe alegrar. Quando o casamento se une ao sentimento de amizade, resulta se sustentando; e aí temos uma companhia tão boa, tão boa, que a vida se torna mais suportável.
Um casal, na verdade, representa a família condensada: o marido é filho da mulher, a mulher é filha do marido; a mulher é filha da mulher, o homem é filho do homem; ambos e ambas são irmãos ou irmãs incestuosos, incestuosas; são avós carinhosos, tios chatos, parentes serpentes. Um casal, em suma, é órfão, como é toda a humanidade.


7 comentários:

Anônimo disse...

Meu pai dizia assim, se referindo ao casamento: "No começo tudo vai muito bem, até que um dia você acorda, olha pro lado e constata: huum... e essa muié que tem os zói torto!" Pronto. Acabou o encanto, foi-se o casamento. Rs. Meu pai era ótimo!

Abraços,
Anônimo I

aeronauta disse...

É, Anônimo I, seu pai era ótimo! É preciso que vocês, filhos, anotem suas frases célebres. Abraços.

Tatiana disse...

Casamento é união de entidades. Cada um tem um multidão por dentro!

Eu concordo que amor + amizade é o perfeito encaixe.

Carlos Rafael Dias disse...

Essa rima, Nauta, é terrível. Principalmente pra mim, que melei as calças duas vezes...

António Jesus Batalha disse...

Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom, li algumas coisas folhe-ei algumas postagens, gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, e espero que continue se esforçando para sempre fazer o seu melhor, quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha. Como sou um homem de Deus deixo-lhe a minha bênção. E que haja muita felicidade e saude em sua vida e em toda a sua casa.
PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

Naiana P. de Freitas disse...

Ri muito.
Mas senti também...Essa frase então:
"Um casal, em suma, é órfão, como é toda a humanidade."

Sandra disse...

Eu acho que ainda estou na parte boa do casamento, o começo, como disse o pai do Anônimo I...rs. Mas eu espero e sinto vestígios de que ainda bem longe, num futuro eterno, no dia em que desejar ser só no mundo eu receba um caloroso abraço, um chá pra esquentar meu peito e um cafuné do meu amado. Assim, talvez eu perceba que mesmo querendo, jamais serei só e como é belo saber disso. Grande abraço!