segunda-feira, 22 de outubro de 2012

flagrantes familiares



De retrato familiar tínhamos dois na parede da sala. Um de pai, de gravata e paletó, pintado à mão - e que mãe implicou tanto que acabou tirando da parede e dando para uma parente - e outro, de nós quatro, de cara apenas, um sobre o outro, em preto e branco: eu embaixo da cara de mãe, e minha irmã embaixo da cara de pai. Um retrato engraçado, enorme, tipo poster. Mãe com os cabelos encaracolados, sedosos, um olhar caído. Pai de paletó e olhar compenetrado. Eu, horrorosa, sabendo de minha feiúra e por isso entristecida. Minha irmã com a cara mais limpa do mundo, cabelo lustrando, com boca de riso, porque foi uma dificuldade para ela obedecer ao retratista: não rir naquela hora tão séria, tão solene.



Imagem: só para imaginar como era nosso retrato: uma cara em cima da outra. In: www.google.com.br

10 comentários:

Anônimo disse...

Isso me fez lembrar de um tal de Nego Tó, um desses retratistas que apareciam nas cidades do interior e lá firmavam morada.
Nego Tó era um autêntico meliante, no sentido mais literal da palavra. Acontece que ele caiu nas graças da sempre carente sociedade andaraiense, e fez amigos e clientes (ou vítimas).
Não sei por qual via meu pai passou a ser um dos seus infelizes credores. Desiludido, creio eu, e talvez no afã de amenizar o seu prejuízo, resolveu meu pai contratar o referido retratista para a confecção de um álbum de família. Afinal, seria essa a única maneira de ver-se ressarcido pelo menos de uma parte da dívida contraída pelo Nego Tó.
Foi um alvoroço o dia dos preparativos para as fotografias. Naquela época foi um tal de fazer nero nos cabelos, vestir calça boca de sino, sapato motoca, relógio orient com mostrador azul e mais e mais detalhes que o tempo incumbiu-se de apagar da memória, como sempre faz o tempo. Tiradas as fotografias, ficamos todos na expectativa da chegada do tão almejado álbum de família. Afinal, dada a pobreza do lugarejo, eram pouquíssimas as famílias que dispunham de um álbum. Aquilo era sinônimo de status, poder e objeto de admiração e orgulho. Muito orgulho!
Chegou o álbum! Minha mãe, firme e compenetrada, lembro-me bem, em pé na porta da cozinha, começou a desembrulhar o pacote. Nós, sua vasta prole, ansiedade à flor da pele, sentados à mesa, nem pestanejávamos. Eis que surge do semblante de nossa mãe um ar de total decepção, seguido de um comentário: -"mas que palhaçada é essa, gente?!" E nos mostrou a primeira foto, onde nosso pai que era negro legítimo, aparecia, pra nossa surpresa, revolta e decepção, de cabelos lisos, partidos do lado, usando óculos esportivos e sem seu tradicionalíssimo bigode. Os demais membros da família foram igualmente descaracterizados pelo retratista picareta.
Minha mãe não teve outra alternativa senão a de enfiar o pacote no fogão a lenha e sair provocando: -"aquele nego me paga; ele vai se ver é comigo agora; é porque Carlos é besta".
E até hoje eu não sei o desfecho dessa história.Rs

Abraços,
Anônimo I

Tania regina Contreiras disse...

E ficam para sempre na memória nossas histórias vividas ou sentidas...
Beijos,

Por que você faz poema? disse...

Flagrantes familiares o tempo transforma em terna poesia.

aeronauta disse...

Anônimo I, me acabei de rir com sua história. Imaginei tudinho!
Tânia e Herculano, grata pela visita.

Bípede Falante disse...

uma menina vigorosa como você não pode nunca ter sido feia!

beijoss

Marcia Toito disse...

Só para dizer que que estive aqui por incontáveis momentos e que foi agradável pra min ha alma e mu coração.Tanta beleza colhi por aqui e por hora me cabe agradecer pela magia da palavra que encontro sempre que venho te visitar.

aeronauta disse...

Obrigada Marcia; que bom saber que tenho uma leitora que consegue colher beleza nesses rabiscos. Grata, muito grata. Fui lá no seu blogue e deixei um bilhete. Abraços.

aeronauta disse...

Bípede, fui feiosa sim; é verdade e dou fé. Rs Bjos

Herica disse...

Hoje me deu uma saudade danada de você aeronauta, resolvi matar minhas saudades lendo seus textos, li vários, sua escrita é uma terapia assim como eram suas aulas. Que aulas!

aeronauta disse...

Saudade de você também, Herica. Bom tê-la por aqui!!!! Bjos