sexta-feira, 16 de novembro de 2012

sandálias kariri

Sandálias kariri. Quem conheceu levante a mão. Era o avesso das sandálias havaianas, eram feias, eram grosseiras, eram desprestigiadas; e nenhuma menina de nossa turma queria possuir uma. Ter uma kariki só por castigo. E foi por castigo que minha irmã ganhou um lindo par de presente.
Por perder milhares de havaianas, um dia mãe sentenciou no seu ouvido, com muita raiva: "Na próxima vez que você perder sua sandália, ganhará uma kariri."
Pelo jeito dela falar, kariri nem significava sandália.
Mas eram feinhas mesmo: uma cópia barata das havaianas; tinham a cor forte e uns desenhos mal feitos em relevo.
Pois bem: numa enchente próxima, ao atravessar o rio, lá se foi o par de havaianas novinho, o último par de havaianas que minha irmã teria.
Ela chorou, chorou, chorou tanto para não querer ganhar uma kariri, que mãe relevou. Deu outra havaiana.
A enchente continuou, rio levando casas, muros, pedras.
Depois passou a enchente. Veio o sol sadio que vem sempre após chuva grande. O rio gafanhoto lá do fundo de casa ficou meio raso, vendo a areia.
Num dia, bem cedo, fomos escovar os dentes no rio, eu e minha irmã.
De lá ouvimos um estrondo. Gritaram longe: "O sobrado está caindo!"
Como a curiosidade sempre foi sua amiga, minha irmã pulou dentro do rio; como o rio estava raso e tinha mais areia, ela foi, mas um pé de sandália ficou. Isso não impediu sua curiosidade: saiu correndo, apenas com um pé de sandália, para ver de perto o sobrado cair.
Pensou: na volta eu procuro.
Na volta procurou,  mas nada encontrou.
Mãe lhe chama da janela. Percebe o que está acontecendo.
Chama "Maísa, vem cá."
Ela sobe as escadas que dão para o portão de casa.
No portão mesmo mãe lhe espera com uma enxada. E com a intimação: "Vá cavar o rio; só volte aqui com a sandália."
A enxada era grande, ela pequena, e as duas travaram uma luta ali mesmo na escada para conseguirem descer juntas.
Ela e a enxada; as duas perigando cair.
Chegando no rio, ela começou a cavar. Cavou cavou cavou. Deu meio dia e nada de achar a sandália.
Mãe, espumando raiva, grita da janela: "Vem almoçar, e mais tarde você volta".
Mais tarde novas escavações. Agora com o sol na cara. Pensava que o pior de tudo era ganhar uma kariki. Continuou cavando. Enquanto cavava, o próprio rio se recompunha em seu corpo de areia como se ali ela não tivesse feito trabalho nenhum. Trabalho vão é trabalho com água.


5 comentários:

Anônimo disse...

Para quem tinha um programa de índio, nada como as "sandálias kariri". E aqui pra nós, essa inútil garimpagem foi mesmo um verdadeiro e trágico programa de índio.

Abraços,
Anônimo I

Maria Muadiê disse...

Amei o texto!

Tamires disse...

kkkkkkkkk tadinha da sua irmã.

Maísa disse...

E depois do inútil esforço, recebi as malditas "kariris", que por mais esforço que eu fizesse, não quebravam e nem sumiam. Foi mais de ano ouvindo mãe jogar na minha cara: "Viu como pra lhe aguentar só kariri? cadê que você perdeu mais sandália depois delas?" Acho que só mesmo num Natal, que me livrei das humilhantes kariris e voltei ao reino das havaianas. Só você mesmo para lembrar dessas histórias. Obrigada por ser minha memória.

Escobar Franelas disse...

Lindo! Fez-me lembrar de vários assuntos d eminha infância, uns dos quais quero me exilar, outros dos quais tenho profunda nostalgia, como os tênis Bamba, que tanto amo hoje, mas não encontro mais.