domingo, 12 de maio de 2013

Volver a los 17



Ela, linda, aos 17 anos. Vestiu o vestido que mais gostava, calçou a singeleza das sandálias campesinas, com as pernas cruzadas. No braço um relógio delicado, e no pescoço uma volta (corrente) sutil, quase não vista. Ocorria um momento importante: o retratista passava pelo povoado. E era preciso guardar-se para a posteridade: por isso a pose, e, a melhor das coisas, o sorriso. Um sorriso lindo, que sequer adivinhava o que viveria adiante. Nessa época eu nem imaginava vir ao mundo, eu que de onde estava não queria vir pra cá de jeito nenhum e me trouxeram a pulso. Mas vir dela me deu mais calma, por isso sempre nos entendemos, temos as mesmas manias, o mesmo nonsense. Dela herdei a tragédia do medo do mundo: nasci algum tempo depois que ela viveu uma de suas maiores tragédias: perder uma filha de sete meses em questão de segundos, sem qualquer resposta à sua pergunta: "Cadê Noélia Lúcia?" Até hoje eu faço uma pergunta semelhante, só que é "Cadê eu?" 
Hoje estamos distantes uma da outra por quase trezentos quilômetros; ligarei para ela, mas não poderei lhe dar o abraço que aprendi a dar: abraço frouxo, mas amorosamente intenso. O que farei durante todo o dia hoje, já que não poderemos sorrir juntas, é mirar esse seu sorriso lindo, e voltar aos 17 com ela.

4 comentários:

Lidi disse...

Esse post já é um abraço bem forte e demorado. Linda homenagem. Você se parece muito com a sua mãe, Aero. Bjs

Carlos Rafael Dias disse...

Mamãe-musa: mas uma "serventia" para esse ser de múltipla função.

Sandra Pereira disse...

Tão bela quanto tu, Ângela. Agora posso mais uma vez constatar de onde vem sua infinita beleza...rs. Grande abraço, querida!

aeronauta disse...

Obrigada a Lidi, Carlos Rafael e Sandra Pereira: seres amáveis que ainda visitam essa casa quase abandonada. Bjos.