quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Série Espanto (2)


A infância recolhida perto do pote da cozinha. Um pote de barro, enorme, sempre gelado, próximo à parede. Janela virada para o rio, acumulando águas no olhar, no tato, no paladar. Água em copo de alumínio, água branca da serra, água vermelha do rio. Copos com os nomes gravados: meu, de pai, de mãe, de minha irmã. Letra meio tosca, escrita por um mascate de feira, aquele que vendeu os copos. Cozinha pequena; para o almoço chuchu, arroz e carne moída. Odiava comer. Mãe me beliscava para que eu comesse. Eu trancava os dentes e ela vinha tentando abri-los com a colher: Come, sujeitinha! E enfiava a comida na minha goela abaixo. Comer pra mim era martírio. Será que todo prazer é corroído de dor? Mas que prazer? Não havia prazer em engolir chuchu, arroz e carne moída. Ela e pai podiam comer todas as outras comidas: as perigosas. Nós não, nem feijão. Feijão dava dor de barriga. Imagine carne de porco! Nunca, nunquinha soube, na infância, que gosto tinha um porco. Até hoje me resguardo desse perigo. A última vez que fui em Minas e vi um leitão a pururuca, deitado sobre a mesa, tive medo. Parecia um velório de porco. Que Deus o tenha!
Ah, e os imensos cafés! Os rios de café na tigela! Às cinco horas da tarde mãe dava um grito da porta da cozinha: Meninas, o café! Na mesa, duas tigelas fundas, enormes, nos esperavam com um monte de bolacha creme cracker quebrada dentro. Na verdade um pacote inteiro: todas já bem molhadas, fofas. Nós corríamos afoitas e nossos amiguinhos espiando - achavam o máximo aquilo. Até hoje encontramos amigos que dizem ainda tomar café em tigelas, com bolachas quebradas dentro, na tentativa tardia de nos imitar.
Para nossas bonecas não tinha drama nenhum: comiam só folha de carambola e a própria carambola, que era o que havia no quintal. Folha de carambola também era dinheiro: comprávamos com elas o mundo todo para Carlúcio e Marlúcio, nossos bonecos. Bonecões brancos, de assombrar, mas que amávamos como filhos impossíveis. Eles faziam que comiam a carambola cortada que botávamos em suas bocas, nos enganavam, e nós sabíamos e adorávamos o engano. Que coisa mais verdadeira!
Até hoje me pergunto onde estão esses bonecos. Em que parte do Paraguaçu. Talvez o Paraguaçu que passa no outro mundo. Mãe jogou tudo no rio, assim como o tempo joga tudo pra trás, sem piedade, no mais banal dos clichês. E foi melhor assim; onde colocaria hoje Carlúcio? Não há mais quintal, muito menos folhas e carambolas. Ele estaria perdido, coitado, morreria à míngua.
Recolho o pote gelado, o pote de barro que fica na cozinha, como disse lá no início dessa prosa perdida. Puxo-o, retiro-o do lugar. O lugar tem muita umidade. Minha infância está ali, olhando o rio. Parada, quase finda.


*Foto: Eu, aos seis anos, assustadíssima. Retrato tirado pelo retratista da cidade na época.

9 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

o rostinho assustado parece prever a falta que carlúcio lhe fará um dia, parece sentir a falta do pote de barro;só não se pode prever como será seu rosto um dia...

Janaina Amado disse...

Pronto. Já tenho o seu rosto. Eu precisava de um rosto para você. Essa história de nuvem, poça d´água, sol refletido na pedra, etc. não me bastava. Agora já tenho seu rosto. Expressivo. Tão pequeno, mas já espanto, dor e interrogação frente aos sentimentos do mundo. Rosto de poeta.
Lindo texto.

Chorik disse...

Cá venho eu a me repetir. Viajo pra beira do rio, nos textos em que você retrata sua infância, real ou ficcional, nunca saberei.
Vocês, escritores, têm essa capacidade de conduzir o leito a vivenciar o que nem de perto conhece. Imagino que o sofrimento da menina aeronauta era proporcional à grandeza de sua sensibilidade e inteligência. Fosse ignóbil e não padeceria tanto. Mas quê, tinha noção de tudo, só lhe faltava um lápis e uma folha de papel qualquer.
Ah! Velório de porco foi genial.
Abs

M. disse...

Tão lindas lembranças. Fiquei comovida. Beijos. M.

Renata Belmonte disse...

Nauta,
Liguei para vc. Estou na terra.
Bjs

Carlos Barbosa disse...

Posso lhe contar de Carlúcio, de dois Carlúcios: um, espantosamente, está em "A dama do Velho Chico", na figura de padre, aquele que quase oficia o enterro de Sinhá Dara; o segundo é meu primo, um jovem anão (ou como quer a imbecilidade do politicamente correto, desprovido verticalmente, ou coisa equivalente) de 30 anos, que nasceu e mora no Brundué falado, terra donde vim e para sempre volto, mesmo que em idéias tortas. Claro que o Carlúcio do romance homenageia o priminho, que mostra o livro aos visitantes, lá no ponto onde aparece o seu (dele) nome. E agora fico sabendo, depois de anos de amizade, que seu boneco de infância chamava-se Carlúcio... Antes de pensar esquisitices, lembre-se que o Paraguaçu corre no sentido oposto ao do Brundué...rs... Abr. (carlos)

Críticas Criticáveis disse...

Tão assustada tadinha pelo jeito vc era igual a mim odiava tirar foto; Velório de Porco! Concordo plenamente, não existe nada mais bizarro; Carlúcio?? Não tinha um nome melhorzinho não? hehehe
bjs Nauta, obrigado por me fazer viajar nessa manhã de domingo

Nilson disse...

Velório de porco é mesmo genial. O texto inteiro tem um sabor muito próprio, muito profundo e suave ao mesmo tempo, muito aeronauta.

maria guimarães sampaio disse...

cada vez que você fala no rio passando no fundo de casa... maravilha. Ê texto lindo.