quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Banzo, Spleen e uma Elegia


Quando um negro "banzava", ele parava de trabalhar, nenhuma tortura em chicote, ferro em brasa, o fazia se mover. Ele ficava ali, sentado, "banzando", "banzando". Vinha o desejo de comer terra. E, comendo terra, voltar para a África, através da morte. Um negro, com banzo, era uma peça perdida.
(Leminski em: "Cruz e Souza")

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.
Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.
(Spleen, de Baudelaire; tradução de Ivan Junqueira)

Estou "banzando", totalmente "spleenética".
Asa machucada, colei com durex. O durepox não encontrei em casa. E mertiolate não funciona.
Agora é esperar tempo de vôo. Esperar que o durex dê jeito.
Enquanto isso, com a voz de Cecília faço parelha e repito baixinho o que ela cantou:

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas, como aroma em brasa,
com suas coroas crepitantes de abelhas.



Imagem:www.flickr.com

12 comentários:

Carlos Barbosa disse...

"Raiou, resplandeceu, iluminou / na barra do dia o canto do galo ecoou / a flor se abriu / a gota de orvalho brilhou / quando a manhã surgiu / dos dedos de Nosso Senhor / a paz amanheceu sobre o Brasil / e o povo até pensou / que já era feliz / mas foi porque / pra todo mundo pareceu / que o Menino Deus nasceu". A voz de Clara Nunes explodiu em minha mente quando li esse post, sob uma imagem tão luminosa de um dia que, desejo com todo amor, esteja plantado definitivamente em seu coração. Estamos aqui, estamos aí, sempre, do seu lado. Abr. (carlos)

maria guimarães sampaio disse...

aero, eu te escreveria hoje o texto que Janaína escreveu ontem.

Renata Belmonte disse...

Você vai ficar boa, tenho certeza! E estou do seu lado, mesmo nas nuvens, para quando você quiser conversar.
Bjs

Bernardo Guimarães disse...

fiquei aqui olhando,olhando,lendo, relendo, pensando o que dizer. acabou o tempo.

Chorik disse...

Mil anos representam uma pequena parcela do que já vivemos, eu, você, nossos amigos. Por vezes as dores são de outras vidas, mal resolvidas, cicatrizes de uma chagas maiores, já vencidas. Viver é voar sem asas, morrer é voltar para casa, como o negro que banzava e comia a terra. O durex vai funcionar e em breve mostrará ao teu amado as nuvens multicoloridas, como as flores, as abelhas a reverenciá-los coroando vossas majestades.

M. disse...

Que bom ouvir você sorrindo hoje. Beijos. M.

Marcus Gusmão disse...

Aeronauta, estou no mesmo banzo. Só tenho uma certeza que posso compartilhar: passa.

Palatus disse...

Perfeito...me trouxe luz e sombra debaixo do céu. Gostei!

Nilson disse...

Acho que também tenho andado de banzo. Mas ler os seus textos, por mais tristes, acaba provocando o efeito contrário...

Edu O. disse...

quase não saio das nuvens

Maria Muadiê disse...

Êpa, só não prolongue, viu? Quando a asa estiver coladinha de novo, voa...

aeronauta disse...

Obrigada a todos pelas palavras, pelo carinho e pelo afeto. Bjos.