sábado, 6 de dezembro de 2008

Sinal fechado


Uma das coisas que mais me faz falta é de ter uma amizade a tiracolo. Daquela que temos na infância, na adolescência e quando freqüentamos a faculdade. Na infância tive a companhia de Sílvia, que mesmo demônia era minha amiga inseparável. Na adolescência ela também me acompanhou. Nós duas, aos vinte e poucos anos, aprontamos muito. Uma sabia dos segredos da outra; nos encontrávamos todos os dias na praça pra prosear, além de, nas festas, dividirmos os pileques. Engraçado, nos pileques eu só falava em literatura: todo mundo virava um escritor celébre. Tenho um amigo que até hoje atende pelo nome de Gregório. Gregório de Matos, claro. Nesses pileques já fui Clarice, Cecília. E berrava aos quatro cantos poemas de Bandeira. Um vexame, que a amiga fiel compartilhava.
Na faculdade tive outra amiga, inseparável. Quando voltava de viagem, no domingo, ela era a primeira pessoa para quem eu ligava. Pela manhã, os papos atualizados, as fofocas e os risos em dia, flanávamos pelos corredores. Nas provas, nos ajudávamos, assim como também ela me ajudava no meu pendor para os amores clandestinos. Coitada, mesmo atônita com meu jeito louco de viver a vida, entendia. Às vezes dava conselhos, mas no fundo eu sabia que ela me admirava, que estava do meu lado pra qualquer coisa. Ficamos comadres. Batizei sua filha, minha linda afilhada que tanto amo. Mas hoje não moramos na mesma cidade.
Nunca, nunca mais será como antes. A cidade aqui é imensa, tenho tantos amigos queridos: todos vivendo do outro lado da tela do computador e nos fios telefônicos. Tenho amigas com os mesmos gostos, as chamadas afinidades eletivas, mas o encontro é sempre difícil: o mundo não permite. Vez ou outra Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, tudo bem eu vou indo correndo


Imagem: "Sinal fechado", de Ducarvalho. In: www.flick.com

6 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Aero,
viajei! Toda essa gente continua transitando em minha vida e eu na delas. Alguns-algumas nos falamos diariamente. Algumas já morreram. E assim vamos.
Beijos de maria
(acho que neste textículo o português foi pras cucuia)

Janaina Amado disse...

Ah, não, protesto! E as pessoas que querem te conhecer pessoalmente, e você não quer, hein, hein? Conheço bem umas cinco, euzinha incluída... Tome tento, sá menina!

Bernardo Guimarães disse...

o importante é não encanar; os amigos sempre, serão; os camaradinhos, vem e vão, e a gente vai vivendo assim.

Renata Belmonte disse...

Nauta,
Estive em SSA e liguei para vc, mas não consegui falar. Espero que esteja tudo bem. E seus amigos, tenha certeza, estão todos no mesmo lugar.
Bjs

Maria Muadiê disse...

Aero, penso diferente: a poesia era linda. Bom, pelo menos tive o privilégio de ler antes de ir para o papel.
beijo

Nilson disse...

Também tenho essa nostalgia de amizades grudadas. Mas é verdade, o tempo passa.