segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Noctívaga


Lembro quando li pela primeira vez a palavra noctívaga. E foi numa noite de insônia, como essa. Fiquei feliz: estava ali uma palavra que era minha, só minha. Sentada no sofá da sala lendo um livro, e quase ouvindo o galo cantar, li a palavra mágica. Não me lembro qual livro era; lembro-me da palavra. Que a partir daí comecei a usar a torto e a direito. Notívaga, noctívaga, etc.
Comecei a achar romântica a minha doença: essa de ter o olho cru, de não conseguir dormir. A palavra noctívaga (assim com o c) é muito linda. Portanto, me reconciliei com a falta de sono e comecei a sofrer menos com esse negócio de ver a noite passar em claro.
Porém, o duro mesmo era ouvir, do sofá da sala, a roncaria rotineira da família. Tinha uma inveja. Ouvir o silêncio de uma cidade que dorme, uma cidade inteira e mais o de sua família, é algo de uma dimensão que nunca consegui pensar direito: dá arrepio na alma. Certo que um cachorro ou outro latia, quebrando o silêncio; um jegue ou outro derrubava o balde de lixo na rua; ou um bêbado qualquer passava tropeçando, num discurso engrolado. Mas o que imperava mesmo era a estranheza do silêncio em que todos dormem. Menos você.
Aqueles que estão acordados agora podem sentir. Ouçam, ouçam. Ouviram?
O que eu escuto agora, como prova do silêncio de que falo, é o sonzinho do computador. Esse silêncio emite significados que minha percepção nunca conseguirá colher. Apenas sentir. E não tem palavra que nomeie. Talvez só mesmo "noctívaga".
Sou noctívaga, pois. Vigio a noite enquanto tanta gente sonha.


Imagem: "Flor noctívaga em rua mil vezes percorrida". De paulomrocha. In:www.flickr.com

10 comentários:

Carlos Barbosa disse...

he...he...he... Minha mãe dizia "esse menino parece vampiro"...he...he...he...

Renata Belmonte disse...

Ops! Também estou acordada! Não durmo há tempos...(rs)
Bjs

Renata Belmonte disse...

Ops! Também estou acordada! Não durmo há tempos...(rs)
Bjs

Bernardo Guimarães disse...

Ah, companheira da noite...mais que noctívago, sou insône! e já não me incomodo com isso; velar os sonos alheios já passou a ser para mim uma tarefa própria do macho alfa. Que os meus durmam em paz...

maria guimarães sampaio disse...

Minha mãe e tias contavam. Me punham no berço para dormir. Ao lado de meu pai. Elas costuravam até mais tarde. Quando minha mãe ia deitar via meus zoião abertos, as mãosinhas a brincar com as sombras. E assim vivi noctívaga até uns 50 anos? mais ou menos. Agora durmo muito bem. De noite (e às vezes de dia). A grande pena é que já não leio como lia.

Anônimo disse...

Desde que nasci, ainda não acordei (Pio Baroja).

Luli Facciolla disse...

Parceira Noctívaga,

tempos atras, descobri que o silencio da noite me completava. Troquei a manhã pela noite.
Durmo em paz a manhã todinha. Exatas 8 horas.
À noite, depois da novela (menos em dia de jogo), o silencio domina o mundo e eu estou lá, acordadona, mandando ver nos estudos, na literatura, nas linhas que escrevo, num bom filme e no que mais for.
Prefiro a noite. Prefiro à noite!
Se precisar de cia, "tamos aí"!

Beijos

Nilson disse...

Eu acordava de noite, lá em Brumado, abria a janela do quintal e ia brincar de gude, ou chamar pra dentro de casa o gato Chanico. Isso com cinco, seis anos. De vez em quando ainda volta essa coisa de não desligar, embora não seja sempre.

Chorik disse...

Não sou notícvago, mas gosto mais das noites quando não tenho hora para acordar. Do contrário, é uma luta.
Antes que eu me esqueça... esse texto é de gente grande.
Bj

Anônimo disse...

Fui procurar a palavra noctivaga e achei este blog. Bem sou destes com insônia constante, acordo muitas vezes por noite e às vezes vejo a noite passar em claro. Acho que é resultado de ficar pensando nas soluções dos problemas e do fato de não gostar de dormir. Este último penso ser mais plausivo. Se pudesse não dormeria mesmo...! Afinal teremos muito tempo para "dormir" um dia!
Bom dia a todos!!!