terça-feira, 15 de janeiro de 2013

a mais legítima

Vivi até os 20 anos tendo, como guru, Mariquinha da rua dos Sete Pecados, rezadeira de todos nós. Melhor rezadeira que aquela não existia, não existe e nem existirá. Como sempre fui dada a quebrantos, era só amolecer o corpo que mãe me levava aos seus cuidados. Quando cresci aprendi a ir sozinha. Às vezes mãe mandava eu e minha irmã, as duas amolecidas, aquebrantadas, pois que não adiantaram os brincos e as pulseiras de figa e fitas vermelhas pelo corpo que ela nos enfeitara como escudo. Então, mesmo sem conseguirmos andar direito, tamanho quebranto, íamos eu e minha irmã bater na rua dos Sete Pecados, entrando casa adentro, chamando Mariquinha, ô Mariquinha. Estava ela lá no fundo do quintal. Magra, negra, bonita que só vendo, nos seus oitenta anos, Mariquinha nos levava para o meio do quintal, uma estradinha. E tome-lhe mato e reza: girava o nosso corpo pra frente e pra trás, e com o matinho ia nos dando tapinhas nas costas, no rosto, no cabelo e dizendo: "Com três lhe botaram, com dois eu te tiro, com os poderes de Deus e da Virgem Maria"; e até nos pés os raminhos iam. Sua voz fraca e ao mesmo tempo potente com os poderes celestiais, continuava: "Se é no calçar, e no vestir, e no andar, com dois eu te tiro..." "Onde Maria põe a mão, Deus põe a vertude". Essa "vertude" de Mariquinha sempre foi a maior virtude que já encontrei por esse mundo, a mais legítima.

3 comentários:

Sandra Pereira disse...

Me lembrei das vezes que também fui rezada, ora por minha tia mais velha, que chamava de Dinda, ora pela "Veia Duva"...baixa, negra e magra, porém vigorosa. Eu não sabia se me atentava à reza ou olhava os galhos que se iam muchando nas mãos de quem me rezava...mandando embora os olhos de admiração e por vezes de inveja que mainha dizia cair sobre mim. Hoje, existem outros nomes para o "amolecer" do corpo. Eu porém, ainda me benzo, ouço a súplica de minha mãe e peço proteção à Rainha das águas para que me proteja, ilumine, guie e abençõe.

Tamires disse...

Oi :)

Maria Muadiê disse...

Também fui rezada na infância. É muito bom.