sábado, 13 de fevereiro de 2010

ceciliana


Não invoco o espelho ceciliano, mas onde está meu antigo rosto? Ganhei perto dos olhos umas auréolas fundas, submersas em nuvens contundentes; meu olho direito, cada vez mais oblíquo, ri de si mesmo, como miseráveis palhaços em circos; e todos os dias a madrugada faz seu serviço: desenha vincos na minha face como quem corta finas vidraças. Para quê? Pergunto a mim mesma, pois que os outros se foram e estou só, gentilmente só. Para quê? O vento, em sua superfície plena, toca meu rosto e me contempla, sereno, à espera. Para quê? Grito, pergunto, sem resposta alguma! Ai, a vida, essa borboleta cega, rindo ruidosamente enquanto prepara tintas que descolorem, que afogam, que desmancham.



Imagem: "Impressionism Sepia" por cassowari.
(www.flickr.com)

4 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

texto belo de doer.
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Mas voltaste depois de longa ausência.

Gerana Damulakis disse...

Incrível. Jamais esquecerei a"borboleta cega" do texto: imagem riquíssima.

I.Moniz Pacheco disse...

Belas imagens no seu texto, como sempre muito forte.

Nilson disse...

Essa borboleta cega é o que há! Grande Aeronauta! Tô de volta e me deliciando com coisas assim!!!