quinta-feira, 7 de abril de 2011

das misérias humanas


O pior do desespero é que não adianta lascar a roupa, tirar um chumaço de cabelo, ficar histérica. Não adianta espernear; devia ter ouvido isso quando criança. Não adianta espernear, não adianta dar chilique, gritar, berrar, soluçar, ranger os dentes. Talvez um calmante na veia, talvez. Ou uma mordaça, e braços e pés amarrados na cama. Já ouviu a expressão "correr pro mato"? "Fulano correu pro mato"... Isso significa o endoidamento de gente da roça. É só dar gastura no juízo que o varão campesino corre pro mato. Já tive vários tios que correram. Enfim, esse é o ápice do desespero. Um dos mais simples é perder uma noite de sono: vira-se na cama de um lado para o outro querendo desaparecer. Um dos mais tristes é aquele irremediável no seu sentido mais terrível, profundo: aquele que a morte escancara com seus dentes de ferro. Esse também não adianta esbravejar, não adianta. Aí profere-se uma palavra que está muito difundida no novo testamento: resignação. Resignação é algo parecido com o efeito que uma injeção na veia produz no malsinado. Só que sem a injeção. É apenas mera e dolorosa aceitação que acontece em virtude da simples obviedade: não tem jeito. O suicida, no entanto, é aquele que não se entrega, não se resigna, vai à sua última luta, o seu último esperneio.

8 comentários:

Lidi disse...

Nunca pensei no suicídio desta forma. Você tem razão. De qualquer maneira, nunca teria coragem. Prefiro viver, ainda que, algumas vezes, resignada. Bjs, Aero.

Maria Muadiê disse...

Nossa, que texto lindo!

Bípede Falante disse...

Eu não consigo compreender como alguém consegue ir até o fim.
bjs

Bernardo Guimarães disse...

não, isso não, nunca! antes correr pro mato.

Flamarion Silva disse...

A gente tem de ter estrutura para nem pensar nisso, para distrair as ideias, pois "intenção escrita no pensamento, arma engatilhada..."
Ângela Vilma, a senhora nem foi para o lançamento do meu livro. Por acaso não recebeu o convite? Faltou você lá, minha querida.
Beijo.

aeronauta disse...

Flamarion, só soube do seu lançamento quando já havia passado. Não recebi convite. Ultimamente ando mais em Amargosa, lugar de trabalho; acho que mesmo sabendo, dificilmente poderia ter ido. Quero é saber onde encontrar seu livro. Desde já, parabéns.

Menina da Ilha disse...

Concordo com Bernardo. Prefiro correr pro mato. Admiro os que ao invés de acabar com tudo, correm pro mato, derrubando bichos, plantas, gente, tudo que encontrar pela frente.Esses, voltam cansados, exauridos, mas sempre sabendo pra onde ir quando o juízo começar a esquentar novamente. O fim não existe, têm sempre o mato como recomeço.

Moniz Fiappo disse...

Na minha família, de ambas as partes, muita gente já correu e corre pro mato. Eu mesma, tenho andado com muita vontade...
Quanto aos suicidas, são alvo da minha curiosidade: será o suicida um corajoso ou um covarde?
Não esqueço nunca Pedro Nava, suicida aos mais de 80 anos.