terça-feira, 12 de abril de 2011

para os meus amados alunos


Muitos estudiosos da literatura passaram décadas anteriores questionando o que é a literatura. Como ressalta Compagnon, professor francês, o questionamento que se faz hoje é bem diferente: "literatura para quê?"
Todas essas questões, claro, pensando no âmbito escolar e universitário onde a disciplina literatura insiste, ainda bem, em sobreviver, mesmo diante da indiferença e da ignorância da maioria dos acadêmicos que não a conhece. A questão se agrava porque vivemos dias burronildos do politicamente correto, e, equivocadamente, exigem tal postura nos textos literários. Exigem dos escritores e por sua vez dos textos literários por eles escritos, "posturas funcionais", "corretas" diante da sociedade. O que nos resta fazer infelizmente é generalizar esse tempo de burrice geral. Ora, ineptos, vão ler qualquer livro de literatura primeiro, antes de ficarem teorizando ignorâncias. Antes de tudo, para se sentir vivo e lúcido, e não um papagaio propagador de discursos modistas, vá aprender a se inquietar com a existência de maneira visceral e não superficial e panfletária. Primeiro é preciso acordar e aceitar sua própria condição finita e infeliz. Você faz tanta reunião, se preocupa tanto com a burocracia que engendra a universidade, o curso de letras, as 'minorias', que não dá tempo pra saber-se um miserê mortal, interiormente tristonho, cego e enviesado. Acredita-se, muito pelo contrário, feliz e cumpridor do dever, enchendo papeladas e mais papeladas com resoluções burocráticas inúteis... Ó feiosos do mundo, quanto deveriam aprender com Bartleby!
A vingança homicida diante da tristeza inconsciente desses fulaninhos medíocres é autorizar reunião e mais reunião de seis horas no lombo de alguns poucos que querem apenas dançar, falar poesia, se encantar e se inquietar com a complexa existência, pois que só assim a alma humana se reconhece viva e propensa a possíveis mudanças. Só dessa maneira os indivíduos, reconhecendo-se enquanto indivíduos, saberão usufruir da mais bela e dura verdade: a solidão, e o que poderá fazer ou não fazer dela e com ela antes de morrer.
Literatura para quê? Já é minha a pergunta do professor Compagnon.
Para amenizar essa solidão desgraçada.
Para não ter culpa ao roubar um mero rolo de papel higiênico na rodoviária.
Para não ter coragem de “lutar contra a existência” de fato e de direito.
Para se aceitar inicialmente humano, terrivelmente humano.
Para tentar produzir palavras libertadoras diante do inevitável e obscuro.
Para tentar entender essa engrenagem metálica, mecânica, sofrível e perniciosa que é a vida.

8 comentários:

Lidi disse...

MARAVILHOSO texto, Aero. Este, não tenho dúvida, vou ler para os meus alunos. PERFEITO. Sem comentários. Você escreveu tudo - e da forma - que eu gostaria de ter escrito. Bjs

Maria Muadiê disse...

Amém.

Anônimo disse...

Aero, minha cara, Lidi resumiu muito bem o impacto do seu texto. Partilho das mesmas razões e sentimentos. Literatura é a possibilidade de sonho, ela muda indivíduos, não classes hierarquizadas, sejam elas “minorias” ou "maiorias". Façamos coro, e vamos ler mais literatura. Aquele abraço. T

Bípede Falante disse...

Um estrangeiro para fazer a gente se sentir em casa.

bem disse...

rsrsrsrsr ( estes risos são para os burocráticos teóricos e os teóricos burocráticos que, provavelmente, morderão-se ao ler este texto.). Como não sou um deles,parabens! Excelente texto. ( Do Bem )

Anônimo disse...

rsrsrsrsr ( estes risos são para os burocráticos teóricos e os teóricos burocráticos que, provavelmente, morderão-se ao ler este texto.). Como não sou um deles,parabens! Excelente texto. ( Do Bem )

Nilson disse...

Literatura pra variar. Porque se fosse tudo assim funcional o ser humano se campava. E, no meu caso, escrever pra liberar serotonina, sobretudo pra isso. PS: privilegiados, esses seus alunos, convidados a refletir nesse nível com a professora!

Lidi disse...

Ah, queria ser tua aluna! Bjs