sábado, 28 de maio de 2011

maconha


Nunca fumei maconha por falta de completa aptidão com fumaça. Aos dez anos minha irmã fazia cigarro de papel e se esmerava naquele fumaceiro todo. Aos onze começou a namorar o maconheiro da cidade. Mas nunca, nunca ela botou ou botaria um baseado na boca. Em contrapartida, eu sempre detestei cigarro de papel, cigarro de qualquer tipo. Mas se não fosse o horror à fumaça, provaria numa boa um baseado. Gosto demais do cheiro, mas o problema é a fumaça entrando pela garganta, acho que eu sufocaria. Mas como não querer provar o proibido? Como não querer transgredir? Lembro de mim aos vinte anos querendo transgredir, namorando um motoqueiro-bancário-maconheiro e indo com a turma da erva para o campo de aviação, nas rodadas de fumaça e pink floid no toca-fitas do voiage. Nessa época eu já trabalhava no cartório e isso aumentava o meu prazer em estar ali. Nesse tempo eu não questionava muita coisa não, só queria fazer coisa considerada errada. Mas nunca fumei um beque. Seria, no fundo, medo?
Essa pergunta me coloca, creio com força, no cerne da questão.
Me coloca no seio da sociedade; me perdoem o chavão, mas pra falar em sociedade não é possível deixar de fora o chavão. Porque o chavão é a cara da sociedade; porque o lugar-comum é a cara da sociedade; porque a repetição, o gregarismo, é a cara da sociedade. Em suma, a repetição emburrece o mundo, e por isso a sociedade é burra, não pensa. E, por que não pensa, proíbe. E porque proíbe, dilacera, estraga o mundo.
O que acreditei até os vinte anos, e é o que a sociedade ensina, é que a maconha é a primeira das grandes drogas; que fumando o cara fica doidão e começa a quebrar tudo em casa, etc, etc, etc. Por isso o medo. O medo de ficar doidão. Daí vem os cacetetes, vem a polícia, vem o delegado. Vem os pais, os professores, os diretores. Vem todo mundo. E muitos deles sabem a verdade, pois que fumam e dormem tão bem, pois que fumam e amam tão bem. Ah se o cafezinho fosse proibido.

12 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito do texto, e penso pq meu deus não existi pessoas como essa aeronauta, pq as pessoas são tão lugar comum,vc merece uma salve que pode ser um reconhecimento ou tambem no bom entendimento dos maconheiros pode ser uma tiração de cara, sem falar no tom pitoresco do enredo, muito bom.
(anikulapo)

Banho Veneno disse...

Muitop tempo sem entrar nesse espaço...Bem, do seu texto ficou essa bela imagem "E muito deles sabem a verdade, pois que fumam e dormem tão bem, pois que fumam e amam tão bem. Ah se o cafezinho fosse proibido"...Na verdade uma síntese de um novo, mas mesmo olhar para os cantos da vida, afinal, todo poeta traga na palavra e fica doidão e calmo e lucido, serenando o verso nos dedos.

Bípede Falante disse...

Tenho pavor de qualquer coisa que me intoxique. Às vezes, até do amor.
beijos

Anônimo disse...

Gostaria que não postasse esse comentário.
Gostaria apenas de lhe dizer que suas aulas sempre foram melhores do que qualquer baseado. Hoje sinto um vazio com saudade daquela professora que embora pequena no tamanho enchia a sala e as nossa vida com algo novo, e posso lhe dizer que não era a literatura mas sim o teu jeito eterno de ser vc. Saiba que sempre que sinto saudades de vc, passo por aqui, mesmo que em silêncio, sinto um pouco de te em mim. Bjs!

aeronauta disse...

Anônimo, me desculpe contrariar seu pedido e publicar o comentário. Mas é que gostei tanto dele, e levo em conta também a sua não assinatura. Obrigada por palavras tão bonitas. Fico feliz em saber que deixei boas lembranças. Grande abraço.

Núbia Novaes disse...

Nossa que texto perfeito aeronauta ... e se tratando de um tema tão polêmico e PROIBIDOOOO ficou mais reflexivo e diferente de ler ...
NÃO SEI QUAL A SENSAÇÃO DE UM BASEADO, mas achei muito interessante o comentário " suas aulas sempre foram melhores do que qualquer baseado" ... show merecido de elogio!
Não importa se sou contra ou a favor da liberação da maconha, mais me importa exteriorizar que sentir a vida VIVA e com "pés no chão" tem mais valor ainda do que se fosse proibido.

aeronauta disse...

Núbia, minha prima querida, que felicidade tê-la aqui, sempre com seu olhar maduro sobre o mundo! Bjos saudosos.

Jonney disse...

Muito boa a reflexão.Alguem consegue me dizer uma sociedade, até hoje, que viveu sem algum tipo de drogas? Nunca ouvi falar.
Eu me pergunto se há droga pior que a fome, que faz o sujeito - num louco desejo de sobreviver- fazer tudo o que estiver ao seu alcance? Que molda a subjetividade de grandes massas da nossa população? Que faz com que sua temporalidade se limite ao imediato? Que faz com que o homem, racional, ceda ao homem-instinto?
No entando, nunca vi demagogo ou politico algum discutir a criminalização da fome. Porque será?
Da fome da gente vive a produção de alimentos orientadas para o mercado, e da crimilização da canabbis vive o mercado produtor de tabaco, do cigarro, verdadeiras drogas a serviço do mercado em detrimento de nossa libertação. "Se o povo soubesse o quanto é bom o chá, não se embebedava"

Força!

Bernardo Guimarães disse...

aero:
tive duas decepções na vida: quando percebi que a argentina não era cor-de-rosa como no mapa e quando não fiquei doidão com maconha. desisti dos dois.

Chorik disse...

Sou contra.

Anikulapo disse...

Quem ler Alberto Caeiro depois de fumar um beque sabe que um pouco de metafisica não faz mal a ninguém.

Anônimo disse...

Quanta bobagem, meu Deus!
Comentários de bípedes? Não seriam quadrúpedes?
Só mesmo sob efeito de um bom baseado pra ter paciência após ler tanta bestajada.
O texto me fez lembrar Baby Consuelo, no auge de sua rebeldia:
..."pois o mal não é o que entra pela boca. O mal é o sai da boca do homem".
Aeronauta, vc é ótima, embora tenha colocado sua mana numa saia justa danada? Mas vai ver que naquela época ela ainda era uma moça sem juízo. Rsrs