domingo, 29 de maio de 2011

a tampa


"Puseram-me uma tampa -
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.
(....................)"
(Álvaro de Campos)

Dia desses acordei no meio da noite na mais terrível escuridão. Senti-me tampada, como no poema acima. Entrei em desespero e gritei para mim: "e se morri?" "meu Deus, e se morri?" Saltei da cama num pulo, e de repente me lembrei de que talvez eu estivesse no meu quarto, e me lembrei de buscar acender a luz. Suava, suava. Só me acalmei ao conseguir encontrar o interruptor e me perceber no claro. Aliviada, murmurei: "então não foi ainda a hora, não morri". Deve ser assim morrer? Deve ser como acordar dentro de um lugar escuro, sem saída? Deve ser como despertar debaixo da terra?" Álvaro de Campos sentencia, sabiamente, num outro poema: "Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos."
Ele está certo. O medo da morte é o medo de se continuar vivo dentro da morte. E daí é que provém o entalamento, a tampa, a sensação cruel de acordar com uma tampa; ser tampado; sentir-se encurralado no escuro, sem qualquer saída.
Abraça-me, meu filho, somos dois entes visíveis, e nos perdemos um do outro. Abraça-me, acolha-me nas entranhas onde te perdeste de mim, dê-me um lugar tranquilo, iluminado, um parque, para que eu possa livrar-me desse peso excessivo de vida sentenciada, dessa condição de viva que um dia, inexoravelmente, morrerá.

5 comentários:

dade amorim disse...

Uma meditação sombria que acomete a todos nós. Mas a evocação do filho acrescenta tanto, faz valer tanto esse texto!
Lindo, lindo.

Adriano Alves disse...

"O medo de estar vivo dentro da morte". Não seria este o medo daquele para quem o arrependimento não era o suficiente para livrar-lhe do peso do remorso? E, banhado de angústia, tomou o suicídio como melhor alternativa para matar seu corpo e condenar a sua alma?
Belíssimo texto.

Chorik disse...

Estar vivo dentro da morte. Lamento, mas é assim mesmo.
Saudades d'ocê!

maray disse...

sofro de claustrofobia. Estar vivo dentro da morte é uma parte do problema. Pra mim, o problema é o morrer sempre, uma e outra vez. É morrer de falta de ar sabendo-se no vento mais forte; é morrer de solidão sabendo-se na multidão mais cerrada. Claustrofobia não tem explicação. Fico imaginando como pude estar nove meses dentro do útero da minha mãe...
Hoje eu controlo, mas não estou curada. Só controlada. gostaria de morrer de repente. Tão de repente que nem desse pra se sentir morrendo. Um problemão.
Mas viver é isso mesmo: um problemão.
Mas eu gosto.

Edu O. disse...

Se o rio só corre para o mar, definivamente, hoje, eu precisava chegar aqui para ler isso.