sexta-feira, 10 de junho de 2011

"Agora que sinto amor"


A imagem maior que tenho dele são aqueles livros empilhados sobre o velho guarda-roupa, e ele retirando-os um a um e me mostrando, dizendo a seguir que foram todos roubados, uns por ele, outros por amigos; que nunca teve dinheiro para comprar livros. Imediatamente me uni a ele, minha alma abarcou sua alma toda, aqueles livros ensebados, frutos de contrabando, traziam a maior humanidade de que já tive notícia. Imediatamente me uni a ele, e lhe comprei uma estante, e comecei a lhe comprar livros, queria nutrir aquela alma. Depois eu fiquei pensando, ele era meu duplo; essa obsessão pela literatura era eu, sempre fui eu; essa preguiça de viver dele era minha; essa vontade de passar a noite em claro, a dormitar pelas ruas era minha. Essa raiva indistinta do mundo era minha. Eu comecei a lhe amar profundamente, como só amaria a mim, em total desespero da própria causa. E ele trazia umas fitinhas esfiapadas no calcanhar, um jeito de menino de rua. E era mansa demais sua pele violenta; sua alma crespa era dissimuladamente indócil. E eu fui me afeiçoando a ele como a uma doença literária, um bovarismo alucinado. Ele pensava literariamente em se matar, e um dia quando entramos numa loja para comprarmos um colchão ele me mostrou um belíssimo amontoado de corda, à venda. E queria ser Bukovski, e era Dom Quixote, e era Sancho, numa ambição prosaica de ser ilustre. Deu a ler Fernando Pessoa e vestiu-se, certo dia, de Álvaro de Campos, a gritar impropérios pelas ruas. Já preocupada, trouxe-lhe, numa de minhas viagens, Alberto Caeiro. Mas ele começou a pensar que o melhor era não pensar, e comprar uma casa no campo, essas ideias que bem remontam também à década de sessenta, com junção absoluta ao não pensar de Caeiro, completamente dominado. Como seria esse menino encarnando Ricardo Reis? É o que me pergunto, é o que me perguntarei sempre, olhando seu retrato.

7 comentários:

Maria Muadiê disse...

ângela, que lindo.

Anikulapo disse...

QUE CARA ESTRANHO DE FIGURA INCRÍVEL, ME DA UM COPO DE LEITE XARÁ QUEM TE VIU QUEM TIVE EM CARA. muito bom belo poético texto literário a vida vira arte escrita flui de leve seguindo sentimentos puros de amor.

Terráqueo disse...

Maravilhoso. Que texto.

Anônimo disse...

Mais um vigoroso texto seu sobre a dor de viver.

Chorik disse...

Mais um maravilhoso texto seu sobre a dor de viver.

Saudades

Gerana disse...

E eu esperando resposta para meu e-mail. Mande notícias. Sinto sua falta.

Anônimo disse...

Hoje sinto que esse menino procura algo que além da literatura possa suprir um vazio que nele se instalou de forma tão profunda. Se pudesse lhe daria parte de mim que mesmo num pequeno instante suavizasse essa dor que o persegue e as vezes o domina. Mas viver é preciso, uma dor singular inerente a cada ser humano.
Saudades de vc.