quarta-feira, 29 de junho de 2011

de tudo que foi perdido


Vivo fora de casa faz algum tempo. Na verdade não tenho mais casa. Em exílio de interiores persisto firme. Em amplos exteriores vou vagando, vazio. São salões brancos e imensos, e neles pessoas em festa festejam, e bailam sob uma música estridente. A criança que fui deu-me adeus, e eu, velho e entediado, limpo minha maquiagem de circo, suja. Nunca tive aptidão para viver, sempre soube disso, por que continuei? Não foi ideal cristão, nem medo da morte, nem ilusão de uma felicidade fina como rendas no vestido. Meu Deus, sequer fui ateu, acreditei em Ti como absoluta permanência de um sol insistente e iluminado. Meu Deus, e os santos todos empilhados num altar laico e místico. Nunca soube o que fui, o que seria, o que serei. Viajo por exteriores oblíquos, e o mar que tenho seca como vidros cortados. A criança que fui me acena de algum lugar antigo, e balas em baleiro colorido me chamam, com fervor. Não há como ir, não há, e não vou. Onde estou, marchar é uma ordem, e acato.

8 comentários:

M. disse...

Como sempre, lindo. Que saudades de nossas longas conversas ao telefone. Bjs.

Bípede Falante disse...

Na vida fora de casa quase sempre faz frio ainda que se faça também um bocado de ótima prosa e poesia :) Beijosss

Gerana disse...

Tanta falta de vc, não respondeu meu segundo e-mail; beijão.

Maria Muadiê disse...

Você está construindo um ninho. Esmere-se. Beleza não lhe falta.
Boa sorte, estou torcendo muito por você.
Beijo,

Lidi disse...

"Onde estou, marchar é uma ordem, e acato." É preciso mesmo continuar, ir rolando a pedra, como Sisífo. Que texto triste, doloroso e lindo. E nisso não há contradição. Você é encantadora, Aero. Admiro-te. Bjs

Sandra disse...

O vazio é uma das poucas possibilidades que temos para a imensidão. Nele tudo pode ser construído, tudo pode crescer. Ele é onde o todo pode começar. A sua ideia de vastidão abre caminhos para o vagar de minha imaginação. Lindo escrito.

Anônimo disse...

Aero,

Nada foi ou está perdido. Não regue a tristeza com as águas dos rios da sua infância.
Ainda há muito o que ser achado.
Não obstante a beleza de seus textos, percebo o cultivo da tristeza em seus escritos, e fico, de certo modo, inquieto.
Eu sei de você, e é exatamente por isso que a tenho como uma de minhas admirações.
Você (ACREDITE!)é um exemplo de superação, de obstinação, e tem farta e diversificada "aptidão", inclusive "para viver" e dar vida à vida daqueles que apreciam a boa palavra; a necessária palavra.
Nada foi ou está perdido.

Abraços,
Um(a) fã

Nilson disse...

Ei, moça do céu, saudades imensas. Ando fora tb,mas literalmente. Voltar aqui é como chegar a um porto seguro de finas, elétricas palavras. Outro dia tava conversando com Kátia sobre marcarmos uma cerveja, uma pizza. E aí? Beijo!