quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Bate-papo num final de tarde

O que escrever num final de tarde de quarta-feira? Tudo, menos sobre a falta de assunto, que já tem tradição na crônica brasileira. E o pior é que há muito assunto nas mãos. Há assunto demais, eis o problema grave. Como retirar tudo de dentro de mim para gravar no mundo? É falta de modéstia isto? Creio que não, pois o que tenho dentro de mim não é lá grande coisa, mas precisa sair, eu preciso limpar o terreno. É algo parecido com varrer aquele grande terreiro onde eu brincava com minha irmã, aos dois anos, na frente de lá de casa. Varrer bem varridinho para depois brincar, pular macaco (amarelinha) até dar dor de facão. Quando criança adorava girar, girar, girar, até ficar tonta e cair. A sensação de vertigem sempre me acompanhou como sedução, vontade de ir ao outro mundo e saber como é. Por isso amei tanto. Por isso de mim tenho essas notícias - palavras que se arrastam no meu ouvido e voam nas teclas do computador. Ah minha Drummondina... Onde estás agora? Você que eu cuidava como se cuida de um filho, sujando minhas mãos de vermelho quando ia trocar a sua fita... Você que sabia de minhas ambições de um dia me tornar escritora. Não é tão fácil como eu pensava, Drummondina. A "Manuela" de Mário de Andrade teve mais sorte que você, que eu. Tenho alguns poemas engavetados, tristes, buscando passear em letras impressas. Tenho essas croniquetas aqui, que se estivessem sido escritas em você, querida Drummondina, ninguém iria ler. Mas tenho alguns dez ou onze leitores assíduos que lêem essas besteiras que escrevo e comentam, isso porque estamos em dois mil e sete e eu finalmente aderi ao computador.
Escrever é mesmo buscar a vertigem, como eu fazia na infância: girar, girar, girar, ficar tonta e cair. É a mesma sensação de amar, amar, amar, e

8 comentários:

Críticas Criticáveis disse...

A escrita tem vida, é como se fosse uma segunda vida dentro de uma pessoa, agradeço muito por saber ler e escrever.

Jambo disse...

já Nâo são mais 11 OU 12 leitores assiduos, faço parte também eu , agora, desse maravilhoso convescote literario. Já não tenho retratos dE infancia, o único que tinha O Ladrão levou JUnto com trapos e documentos dEntro dE uma bolsa. Pensei na hora: lá sE vai uma infnacia. bobagem, dEpois descobri que ela nunCa saiu dE mim.

Renata Belmonte disse...

Obrigada por tb ler sempre as besteiras que eu escrevo! Você é uma das minhas melhores leitoras e acho que sabe disso, não?
Bjs,
Renata

Maria Muadié disse...

amar é brincar de corrupio (lembra?), tem sempre o perigo de alguém soltar as mãos.

Carlos Barbosa disse...

Vc é uma contista nata. Seus finais de "croniquetas" atestam. 2008 é uma boa data para alumiar o mundo com seus contos. Abr. Carlos Barbosa

Ivan Dmitri disse...

Cara aeronauta,

Dor de facão, macaquinho, escovão, corredor encerrado, planta no corredor, terreiro. Acho que somos amigos da mesma infância.
E do mesmo desejo de colocar letras no mundo. Com a diferença que este meu desejo é tardio, jamais sonhei com isso, mas é um desejo realizado plenamente hoje. Boto letras no mundo do jeito que desejo, que me satisfaz, na rede. Também colocava coisas, muitas coisas, no teclado da minha velha olivetti lettera, comprada por meu pai e que respondia com carinho à minha habilidade adquirida num curso de datilografia. Somos de outra era, aero. E somos também desta era.
Só que o papel me convidava à destruição e quase nada do que foi compartilhado com a velha máquina sobreviveu. Aqui na rede, as palavras voam e não tenho mais domínio sobre elas, caem no mundo como filhos crescidos, assim que nascem.
De que outra maneira teria eu contato hoje com seu texto?
Você é uma escritora aero, mesmo que seja uma escritora...de blog, como também me defino. E a rede nos dá a vantagem adicional desejada por Salinger de entrar em contato com quem escreve coisas bacanas, que nos tocam, que nos dizem alguma coisa.

PS. Graças ao seu post, fui ao google e li coisas bem legais sobre a troca de correspondência entre Mário e Bandeira.

PS.2 Aconteceu alguma coisa com sua caixa de comentários que só não permite mais comentários de outros que não sejam blogger. Estranho. Sugiro que você mude para o wordpress. É bem melhor.

Luíza disse...

e amar.
o que tu escreve não é besteira não. e eu gosto de ler.
Beijos

Lidi disse...

Besteiras?! Queria eu escrever "besteiras" como você! Adoro tudo que você escreve. Beijo!