segunda-feira, 19 de abril de 2010

Canto em Dor Maior


Sou uma total desequilibrada, gritando por amor. Abram suas portas, vejam minha loucura, meu cabelo desgrenhado, minhas unhas sujas. Abram suas portas, me acolham. Me coloquem no colo, matem meus piolhos. Estou esmolando, sim, amor. Como não se tem vergonha de esmolar pão, moeda, comida, estou na mesma condição. Tirem esses arames das mãos, eles podem me ferir. É apelação de verdade, estou apelando sem qualquer vergonha. A flor antiga, anônima e discreta, se despetala em desespero, com enormes elefantes sobre os dedos: dóceis, ternos, feito abelhas velhas, doidamente tontas. É uma cena tosca, é uma cena forte. Querem fugir dessa cena? Fechem suas portas, tampem os ouvidos, aqueçam a alma; e vejam como sumiram as borboletas; todas sumiram, sem festa e sem gritos, pois que não são dadas a pieguices; são elegantes, líricas, serenas. Mas desapareceram. Nunca mais passearão por teus cabelos. Não sou nenhuma borboleta, sou um besouro feio, um besouro grotesco, que nunca desaparece. Zunindo o absurdo, a mendicância, o nojo, toco teu rosto como muitos, impossíveis beija-flores.


Imagem: "Delírio em azul", por Maria Fernanda P. Barreira
(www.flickr.com)

6 comentários:

Janaina Amado disse...

Ai meu deusinho, estou sem fôlego. Deixa eu dar um abraço apertado, aconchegante, amante neste besouro-beija-flor-borboleta desgrenhado antes que ele fuja mancando daqui e eu não possa mais respirar.

I.Moniz Pacheco disse...

Ainda existem jardins que podem acolher esse besouro zunidor. Ainda existem jardins com borboletas, beija-flor, pássaros, que, com certeza besouro, lhe convidarão para uma farra nas flores.Só não esqueça de me indicar o caminho!

Gerana Damulakis disse...

Nossa, está simplesmente demais o texto. Também fiquei sem fôlego, tal Janaína.
Genial, minha querida Escritora. Genial!

Maria Muadiê disse...

Excelente texto.

Flávia Paula disse...

Eu tenho um pouco desse besouro. E nessa frase vc consegue plenamente descreve-lo por completo "Não sou nenhuma borboleta, sou um besouro feio, um besouro grotesco, que nunca desaparece. Zunindo o absurdo, a mendicância..."

Lua disse...

Professora, eu sou esse besouro, eu sou os primeiros versos, eu sou a louca esmolando um amor.
"Sou uma total desequilibrada, gritando por amor. Abram suas portas, vejam minha loucura, meu cabelo desgrenhado, minhas unhas sujas. Abram suas portas, me acolham. Me coloquem no colo, matem meus piolhos. Estou esmolando, sim, amor."