quarta-feira, 21 de abril de 2010

antigo e velho mar


Se eu fosse Rubem Braga iria botar lirismo nessa história. Como não sou, corro o risco de fazer notícia grande de algo talvez pequeno; porém, algo que só aparentemente beira à pieguice, à paquera vulgar. Mas o risco que se corre com a linguagem é o mesmo que se corre numa fila de supermercado cheio, às oito horas da manhã de um feriado de Tiradentes. Risco apenas de ver cestinhas e carrinhos repletos de mantimentos sem nenhum lirismo, fora uma ou outra melancia luzindo, ou uma maçã explodindo de vermelho, à espera.
Na minha frente três senhores calvos, com grossas alianças, que, mesmo carregando o mundo todo, ainda na fila iam abastecendo seus carrinhos. Suas mulheres àquela hora deveriam estar dormindo, enquanto eles compravam frango, sorvete de chocolate, queijo, peixes, frutas, macarrão, leite, enlatados, pães. Nunca vi tantos senhores juntos, numa fila indiana, preparando o regalo da família que, provavelmente, àquela hora, dormia. Lá ia eu no meio deles.
De repente ouço uma voz sobre a minha cabeça:
- Você tem esse cabelo enorme há muito tempo?
Me viro e vejo um senhor alto, calvo, com um boné branco e olhos vívidos, de um verde que foi forte e hoje está esmaecendo.
- Tenho sim.
- Há mais da metade de sua vida?
- Sim, desde os dezessete.
- Nunca cortou?
- Nunca.
- É algo como parte de si?
- É.
Em nenhum momento ele disse que meu cabelo era bonito. Apenas estava entusiasmado pelo tamanho dele.
- É muito difícil hoje existir moças de cabelos compridos. Todas querem seguir a moda.
- É verdade, digo eu, sem saber o que dizer.
- Você o cortará um dia!. Afirmou categoricamente.
- Não, nunca o cortarei.
- Tem certeza?
- Sim.
- Por quê?
- Não sei. Dizem que é porque sou filha de Iemanjá, respondi.
Aí ele falou algo que achei tão brega, tão fora do script, que morri de raiva.
- É filha mesmo. Se você tivesse na praia, jurava que era a própria.
Virei e olhei o seu rosto, buscando a constatação do sarcasmo, da paquera sem graça, do verso de quinta categoria, mas não vi nada disso: vi apenas dois olhos verdes, tristes, se apagando.
- Você acredita mesmo em Iemanjá?, ele perguntou, sério.
Não deu tempo pra responder. O caixa me chamava insistentemente. Com um tchau saí correndo com minhas compras, numa pressa desavisada de quem corre do mar, de um antigo e velho mar, repleto de sargaços.



Imagem: "O mesmo velho mar", por Cláudia Dias.
(ww.flickr.com)

14 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

o feriado ao menos nos deu um texto belissimo sobre um velho babaquara...

Chorik disse...

Xaveco de japonês é assim.

Janaina Amado disse...

É verdade que desde os 17 anos você nunca cortou o cabelo? Preciso saber!

Luli Facciolla disse...

Paquerinha de velho babão?! Em pleno feriado?!
É complicado, viu?! he he he he he

Ótimo texto!

Beijo

M. disse...

Você é incrível. Transforma tudo em literatura da melhor qualidade.

Gerana Damulakis disse...

Como vc consegue transformar em literatura!!! Cheguei a me emocionar com o toque que vc deu deu na narrativa, quando introduz os olhos dele, volta aos olhos dele, depois fecha com os olhos dele. Olhos da cor do mar, mas já deixando de reluzir. Iemanjá, rainha do mar. Ele evoca a praia, se vc estivesse na praia. Reparou que o supermercado desaparece? Vc é D+, aero.

Anônimo disse...

E vc já cortou o cabelo sim. Aparou as pontas várias vezes rsrs

Anônimo disse...

Algumas coisas só acontecem com vc! rsrsrs

Maria Muadiê disse...

adorei!

Nilson disse...

Grande texto, fecho com as anotações de Gerana. Babão ou não, o velho é um belo personagem!

Terráqueo disse...

O texto é tão agradável e a menção aos olhos tristes se apagando tão realista e poética ao mesmo tempo, que compensou esse inusitado encontro. Um momento irritante para você, mas uma excelente história para teus leitores.

Anônimo disse...

Quando o texto nos engana? Prefiro pensar que as vezes nossos olhos não conseguem perceber certas sutilezas. Talvez por isso tantos comentários ressaltando uma paquera barata ou mesmo ter sido tal encontro um momento irritante. A protagonista, pelo contrário, acaba encontrando nos olhos do homem uma “tristeza se apagando”. Ela fica comovida com os olhos do estranho senhor. Olhos que viveram uma vida e que agora começam a esmaecer. O mais incrível é como Ângela conseguiu captar uma dimensão do humano que comumente é esmagada todos os dias.

Flávia Paula disse...

ha se todos fizessem igual tu, transfomassem tudo em poesia...a brisa do mar nao somente se limitaria a praia; a um além sem fim.

Jornal Do Marcus disse...

Muito interessante o texto... Quanto a imagem é linda!
Estou com saudade. Quando nos veremos?