quarta-feira, 12 de maio de 2010

o que sei dizer


Eu só sei dizer que mãe sempre faz as mesmas coisas. Me dá presentes com papéis já usados, guardados: vê-se neles as marcas daquilo que um dia já foi recebido com alegria. Sobre o embrulho, o reaproveitamento de fitinhas cor de rosa encaracoladas, que vieram de outros pacotes. Eu só sei dizer também que ela sempre me dá muitos presentes: e que muitas vezes eu mesma lhe dou os papéis de volta, para que ela possa guardá-los, desamassá-los e outro dia voltar a me presentear com os mesmos, nesse ínterim do eterno retorno em forma de papel. Sei que há nisso algo misterioso, como em tudo há mistério. Só que certos mistérios são bem melhores que os deixemos em seu véu de ternura, de idiossincrasia, de algo particular. E mãe tem muitos desses. Todos bastante simplórios. Colecionar receitas, por exemplo, como se coleciona selos. Guarda-as, copia mais, e vai juntando sua babel de comidas invisíveis: todas elas no papel, ocultas em cadernos luxuosos, nas revistas compradas em bancas, ou tiradas na televisão, copiadas com sua mão cheia de veias verdes, saltando sobre a folha. É um escrevinhar e ler eternos de comidas, perpetuados no paladar inefável de quem já provou todas as iguarias. Portanto, eu sei dizer que ela fala muito em receitas, um de seus maiores segredos. Tem também uma disposição invejável para viver, usar os sentidos, varrer uma casa, lavar uma roupa, estar em contínuo movimento. Lembro que quando criança meu maior desejo era que ela fizesse as sobrancelhas e passasse batom. Sem querer ela já me ensinava sobre tudo que é selvagem no mundo, principalmente as próprias roupas, costuradas por suas mãos de unhas pequenas. Sua nenhuma vaidade, distribuída pela casa em forma de cactos em latas de querosene. E aquela força violenta que vinha de seus olhos ao ser contrariada. A poesia oculta na bolsa que nunca usou, na calça comprida que jamais se ajustou aos quadris estreitos, nos cabelos para sempre curtos. Ah, como não dizer mais uma vez que ela sempre faz as mesmas coisas... E que suas palavras e frases ultrapassam décadas, sem máculas, sempre as mesmas. Abre a geladeira da mesma maneira que abriu na década de setenta. E ri com o mesmo trejeito que conheci quando balbuciei as primeiras sílabas. Com ela aprendi a amar o que se conhece - sem qualquer susto; o que me priva de tudo que é, na verdade, a vida.



Imagem: "in utero", por marco sannino.
(www.flickr.com)

9 comentários:

Maria Muadiê disse...

Menina!

Flamarion Silva disse...

É, dizer o que, minha senhora. Sua prosa discorre, escorre bem pelo tempo, dolorida. Que terreno mágico, este, o da memória. Muitas coisas de suas lembranças encontram lugar nas minhas: "lata de querosene", que chamávamos de "gás". E tantas outras coisas expostas nos vincos de sua prosa, que se declaram com olhos de quem espia pela greta da porta.
Demais, tudo o que você escreve.
Abraço.

Chorik disse...

As mães são muito parecidas entre si. O diacho é a gente, sem perceber, copiando as manias das mainhas, como se elas estivessem nos genes. Devem estar. Certos sofrimentos se perpetuam assim.

I.Moniz Pacheco disse...

Quantas lembranças doces, doridas.
Quanta poesia, quanto amor, admiração.
E eu aqui, enlevada por esse seu jeito lindo de escrever...

Gerana Damulakis disse...

Vc conseguiu me deixar tão sem palavras que li e larguei a página aberta nos comentários, precisei tomar um copo de água, engolir tudo que li e zanzar pela casa. Agora que voltei, além de poder escrever Grande texto, que texto!, só posso dizer que entendo completamente este fazer tudo igual como modo de segurança e esta falta do que é mesmo a vida - e a vida? onde a vida? - como uma angústia sem par e sem fim e com medo.
Eu preciso dos escritores, digo sempre, porque escrevem o que eu não saberia expressar. Vc é mais que demais, vc é grande, sim.

M. disse...

Você sabe dizer tudo o que a maioria não consegue. Lindo. Beijos. M.

Edu O. disse...

emocionante, aero. lindeza pura.

Nilson disse...

Eis um puta texto, tudo no lugar, tudo. Parafraseando Martha: moça!!!

Memória das águas disse...

Com ela aprendi a amar o que se conhece - sem qualquer susto; o que me priva de tudo que é, na verdade, a vida.

...

E de repente se ver diferente e amando o desconhecido é se atirar num abismo. A escolha do como cair é crucial pra mim... morrendo de culpa, de olhos fechados? com os braços abertos, curtindo a vertigem? gritando de alegria e de medo? o peito rasgando e o coração servindo de pára-quedas? ..?...?....? Escolhas...

Esse blog é indescritível. Quero, com calma, ler muito mais aqui.