sábado, 1 de maio de 2010

escrevo-me


Acho que levei a sério demais o conselho de Barthes: "o que não se deve suportar é o recalque do sujeito - quaisquer que sejam os riscos da subjetividade". Assim, corro todos os riscos me colocando nessa página, arriscando minha cabeça, minha reputação, mesmo sob o signo de aeronauta. Falo, falo, sim, o nome de meu amor, de meu inferno, de minha alegria, de meu desespero. Conto as minhas tragédias mais íntimas, revelo a cor de minha apatia, rubro-forte, com amarelo nas pontas. Vivo para escrever-me, dona que sou desse umbigo fundo, sempre à espreita, com sua sujeira primordial. Esta página aqui é meu espelho diário, e se não há texto novo é porque não estou em mim. Mas um dia volto, nas nuvens aterrisso, e cravo meus dentes na alma, com fome antropofágica. É, porque minha alma é feita de matéria, matéria bruta, nada suave. Cinquenta quilos de carne. Esmago cada parte dela, como não se faz com o Amor; sem nenhuma delicadeza, exumo-a, às vezes mato-a. O que não me impede de sobreviver; aliás, é o que me permite sobreviver. Sem alma - na página. Nem um pouco lírica, nem um pouco terna, nem um pouco amiga. Mas viva. Esplendidamente ligada ao umbigo sujo, encardido, presa de formigas e fungos.



Imagem: "Umbigo 3", por Arthur Boniconte.
(www.flickr.com)

12 comentários:

Janaina Amado disse...

"Cravo meus dentes na alma, com fome antropofágica" é ótimo. Ainda bem que você desvenda sua busca aqui, com a gente.

Bípede Falante disse...

Aero, como você escreve bem. Amei a frase " se não há texto novo, é porque não estou em mim ".

Bernardo Guimarães disse...

e nós ganhamos com a leitura dessa correspondência.

Chorik disse...

É um privilégio conhecê-la. No que me concerne, tua reputação aumenta a cada dia. Essa tua nuvem pode não ser a mais limpa do céu, mas também não sou nenhum anjo cândido.
P.S. Talvez Adão não tivesse umbigo sujo, mas só porque não tinha umbigo. Ou tinha?

Gerana Damulakis disse...

Sabe o que pensei? Que é um privilégio ter a oportunidade de acompanhar o que vc escreve.
Vc é incrível e sempre me emociona, mexe comigo, me coloca água nos olhos.

Maria Muadiê disse...

Ângela, achei lindo esse texto.

Apatia cor rubra...tão vibrante essa apatia, não é?
beijo

Katia disse...

Porra, que mulher é essa!!! Queria multiplicá-la em acessos para todos os que não a conhecem. " Se não há texto novo, é porque não estou em mim"!
Não deu só para partilhar com meu umbigo. Tinha que comentar, coisa que não costumo fazer, ainda que navegue em vc, diariamente!!!
Viva!!!

Terráqueo disse...

Aeronauta,

A tua reputação aumenta a cada dia. É impossível não ficar tocado pelos teus sentimentos e pela estética dos teus textos.

Lua disse...

Professora a Srª escrveu sobre mim???
Parece até que me compos nesses versos. Parabéns. Muito lindo!

Kátia Borges disse...

Oi,só pra agradecer as palavras, o telefonema. Palavras assim é que movem a gente, botam o coração para andar. Um beijo

I.Moniz Pacheco disse...

Dessa vez voce se superou, que texto! Me nocauteou!

Nilson disse...

E nós aqui, a reverenciar o seu umbigo!Demais!