terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"algumas palavras duras"


Ah, as palavras e suas delicadezas, seus tapas. Hoje estava no salão fazendo a unha dos pés, e a moça era um toro de madeira que cai nas nossas costas e nos machuca. Primeiro: ela fazia seu trabalho com muita preguiça e raiva de meus pés. Mão pesada, cada unha que ela tocava doía muito, sem contar na má vontade da peste, no conversê com a outra colega, na lerdeza, na má educação. Com grosseria ela me pediu para escolher a cor do esmalte; respondi que era vermelho claro e ela não entendeu; voltou a perguntar, num tom irônico, zombando de minha pessoa. A colega lhe explicou o que era vermelho claro e ela finalmente começou a pintar. Ficou no pinta e borra, mais borrava que pintava; borrava, apagava com acetona, voltava e pintava, num acabar nunca mais. Pra completar, perguntou se tal unha minha do pé direito era daquele jeito porque levou "porrada". Jesus, isso soou como um tapa na minha cara. O quê? Perguntei. E ela repetiu "essa unha levou porrada?" Dessa vez o "porrada" saiu com mais escárnio, como palavrão descarado. Com calma eu respondi que não houve nada disso, aquela marca era de nascença. Às vezes me acho uma pessoa tão pacífica, tão controlada. Mas um facão ali vinha em boa hora. Eu cortava sua cabeça e sairia daquele lugar maldito bastante aliviada, lhe ensinando, à custa de sua vida, a delicadeza com as palavras e com as pessoas.
Ah, meu Deus, há palavras tão delicadas, há gestos macios, como uma carícia, como um beijo, e a maioria das pessoas utiliza dos vocábulos mais endurecidos, como socos que dão bem no meio da cara de quem as escuta. Parece que é uma vingança contra a linguagem, contra o mundo, contra o outro, contra si mesmo.
Certas palavras me fazem chorar: são surras de chicote, surra de cansanção; e o pior é quando mansas são entoadas todas essas cantilenas malditas. "(...) Algumas palavras duras/ em voz mansa te golpearam/ nunca, nunca cicatrizam" (Drummond). As palavras duras em voz mansa são as piores, parecem agulhas pinicando nossas nádegas, nos deixando em total desconforto num de nossos lugares mais íntimos. Invasão, pois, inescrupulosa de privacidade, impossibilitando nosso livre e confortável direito de escutar, com deleite, a voz, sim, completamente delicada dos ventos.


Imagem: "Duas rosas vermelhas", por Eduardo Almeida.
(www.google.com.br)

7 comentários:

Lidi disse...

Aero, adoro esse poema de Drummond. As palavras duras nos golpeiam na parte mais sensível. Ainda mais quando vem em voz mansa. Ainda mais quando vem sem a intenção do golpe, daquela pessoa que a gente idolatra. Mas é assim mesmo, como escreveu o grande Drummond: "o coração continua". Bjs

Chorik disse...

Aero, me desculpe, mas fiquei rindo aqui, imaginando a cena.

Marta F. disse...

Bastante perspicaz, garota.

(vim aqui abstrair na sua ternura, volto encantada. Parabéns!)

Bernardo Guimarães disse...

taí,
se fosse a menina da ilha, chutava o balde, passava uma rasteira e cuspia em riba. tu é muito mole...
mas é adorável por isso mesmo. sua irmã também. cosma e damiana, preto e branco, ponto e virgula.

ideia não tem a(ss)ento disse...

Misto de risada e pensamento. Muito bom esse texto! Doçura e raiva... você consegue coisas impressionantes. Um abraço forte!

Maria Muadiê disse...

as palavras duras muitas vezes me paralisam. outras vezes, eu mesma as digo.
ferem nos dois casos.

Heloisa disse...

Aero, qualquer dia deixo a preguiça de lado e comento via e-mail todos os seus textos maravilhosos! Um grande beijo!