segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

cantiga de ninar


Se eu pudesse, menino, lhe daria sua infância, e lhe abraçaria na saída da escola; você com sua bota nova e a farda azul, a merendeira vazia, eu lhe suspenderia no alto, fazendo você rir; você suado, eu lhe pegaria pela mão e iríamos juntos para casa. Ah, menino, cultivo seus olhos, tão doces, e neles entro e lhe levo para o banho, para o parque, para a merenda da tarde. Rimos muito, eu lhe fazendo cócegas, você correndo pela casa, desarrumando livros, sempre com uma asa torta; sempre com uma asa torta, e a outra solta, evaporando no caos. Mas como eu cuidaria desses braços longos, dessas costas largas, desses pés no chão, sujos de poças d'água; como eu cuidaria do seu resfriado aos seis anos, de suas lembranças esquecidas... Mais do que isso, eu lhe daria sua infância, menino, se pudesse; e com ela um cavalo de verdade, meu pequeno fidalgo de la Mancha.

3 comentários:

Maria Muadiê disse...

muito lindo.
vontade imensa de chorar.

Anônimo disse...

ao descrever marcas que passaram, tempos que foram outros, coisas miudas e pequenas, distrações e lembranças vazias e solitarias no seu submundo de ideias fugidas de tempos remotos. o teu menino crescido corre no riso louco pra te encontrar, ter a certeza que você unica estará lá, a tua poesia gera poesia,as tuas ideias rercortadas de histórias improvisadas, toca fundo bem na alma, bem perto do abraço verdadeiro em forma de palavras com ternuras com todo o afeto de quem sabe amar uma criança, de quem sabe amar o universo desmedido tão terno e sentido querendo o outro ajudar. todo o amor pra te é merecido cantigas pra lembrar.ass.(o amanhã não virá nunca mais)

M. disse...

Não sei o que é mais belo: o texto ou o comentário do "anônimo". Quero que você seja feliz.