segunda-feira, 7 de setembro de 2009

grave delito


Virar alguém pelo avesso, rasgando pela barriga, é assistir ao espetáculo de ver vísceras e coração. Botar a mão em cheio no sangue, sangue vermelho rubro. Oh, meu amigo, não adianta depois lavar as mãos. É tarde, essa mancha não sairá de seu avental, pois mais que o lave. E nas suas mãos ela se tornará a continuação do mais grave delito, a cumplicidade infernal que há em todos os paraísos, como na escrita e no amor.




Imagem: solo sangue, por zimbia.
(www.flickr.com)

domingo, 6 de setembro de 2009

nomes


Seria Verônica. Não, não gostaria de ter sido, de ser Verônica. Esse nome não se parece comigo. Esse rô no meio soa rouco, a proparoxítona parecendo um lamento solene e triste. Se eu tivesse sido Verônica certamente agora estaria com uma toga, administrando audiência, com um olhar vago e melancólico.
De todos os nomes que gostaria de ter, ganhei dois. Gosto demais de um. O conjunto soa harmônico, é a minha cara, inocência e destruição. Aqui sinto falta dele. Aqui esse nome está gritando agora, como as loucas gritavam nos fundos dos casarões mal-assombrados. Ele quer chegar à sala de visitas, mas os donos da casa ainda não deixam; ainda não é a hora. Guardo, portanto, meu nome, como antigamente se guardavam as senhoras loucas.
Talvez por isso os inúmeros apelidos. De meus tios, de meus pais, de meus primos. Sempre fui muitas. Coisa por demais vulgar, certamente. Mas sempre quis ser uma, una com os meus dois nomes, mas nunca quiseram, e só me chamaram de outras. Meu nome, pomposo, apenas nas cadernetas da professora; na hora da chamada todos viravam para conhecer a sua dona. Até que se acostumaram. Mas se forem hoje na minha cidade, e bem alto recitarem meu nome, ninguém saberá dizer quem é.
Quem é?
Pergunta insistente. Oh, você aí, que se encontra comigo algumas vezes, sou eu, lembra-se? Estava com um vestido florido, e eu sabendo que você conhecia em mim o que há de mais secreto. Mas ali, pra você, eu era uma estranha. Ao mesmo tempo em que eu me divertia, lamentava profundamente.
Não, não sei quem é. Me deram esse nome, colei-o na minha mão direita, e ele vai nos atestados, nas declarações, nos envelopes. Ah, está na parede antiga, no certificado de conclusão do curso de datilografia. Tinha quinze anos, e a assinatura vai ingênua, pura, doce, bem feita.
Eu, com um pimpão na cabeça, aos doze anos, no fundo a bandeira nacional, assinando um livro aberto, rindo. Fingia que assinava para o retratista clicar. Ah, o fingimento sempre me perseguiu. Colaborei, fingi, ri, assinei, e depois voltei pra sala. Naquele lugar sentou-se a classe inteira, fingindo assinar o livro. Não sei se todos riram.
Foi pai quem me deu esse nome. Mãe não queria. Ele foi escondido ao cartório, enquanto ela estava de resguardo. Voltou, desconfiado, mas com a certidão de nascimento na mão, garantindo no papel aquele nome, nome duplo que mãe não queria. Um dos nomes, dizia ela, era de uma inimiga sua.



Imagem: "Cida Muffa "Passeio na chuva" técnica mista", por Artexplorer.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

lúdico


Nem se eu quisesse poderia acabar com esse blogue; assim como nem se eu quisesse poderia deixar de lhe amar. As duas coisas são para sempre, para sempre, independe de minha vontade, é como tomar água, lúdica e límpida água, meu amor. As duas coisas, esse blogue e você, são o que sou, o que trago como força e dilúvio, tempestade que vai se acalmando, bebê acarinhado no rosto. Você um dia me deu uma pasta com lápis de cor, um caderno de desenho, e eu comecei a desenhar o mundo; você me abraçou fundo, num regresso sem fim; sem precisar beijar na boca você confirmou nosso encontro. Um abraço guardado, na mais comovente sinceridade. Um idílio na linguagem, palavra roçando palavra, o êxtase, a perplexidade. Amor se faz assim, tecendo verbos imaginários: eu e você nesse olhar que não consome, que conforta, que brinca ludicamente com a morte...



Imagem: "Ludicamente", por Luz Delorenzini.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Eu


Feliz deve ser quem pode viver sem escrever. Eu não. Mais fico doente se não escrevo. Em cima da cama, por favor, me dê minha máquina de escrever, que esse negócio de laptop não entrou ainda no meu mundo. E quem está escrevendo aqui sou eu, eu, eu, eu. Quantas vezes tenho que dizer esse pronome possessivo? Mil vezes. Eu, eu eu, eu sou ela, quem não sabe fique sabendo agora. Por que preciso mostrar minha cara na carteira de identidade? Para ser aceita? Para ser rejeitada? Para ser mandada para um manicômio? Oh, filho, coloque-se um pouco do lá de cá pra sentir o que é bom pra tosse; não é frescura não. Afinal não sou nenhuma Malu Mader. Que esse negócio é coisa de minha cabeça, sei desde que comecei a ouvir falar que tudo é psicológico. Mas vá lá: pode chamar de frescura, de calundu, de loucura, tudo isso sou eu. Você mesmo assim ainda quer me levar? Precisa olhar meus dentes? Não valho muita coisa não, querido. Falo mal da vida alheia, tenho ressentimentos profundos, mas gosto muito, muito de rir. Não se engane nunca: ela sou eu. Não se esqueça disso. Não, sei que você sabe, você que me ama por dentro sabe. Sabe que quem vive a crise de identidade agora não sou eu, mas a criança da década de setenta. Uma criança birrenta e medrosa. E que tem medo de cachorro. Medo de soldado (igualzinha a Maca). Medo de homem da sucam. Medo dos coleguinhas da escola. Medo de sair de perto da mãe. Se isso aqui é divã? Ora essa, isso aqui é o que eu quiser. Que hoje não estou pra ficar ouvindo voz chata de superego zombador. Estou é pra reclamar o que é meu: esse espaço, eu. Pode parecer autoritário, mas eu preciso ser mandona agora. Não, não vou matar ninguém, Aeronauta muito menos, porque não posso me matar: nunca tive vocação pra suicida. Acho meio besta isso, esse negócio de se atirar de pontes, viadutos, ou botar bala de revólver na cabeça. Quero apenas dizer, de novo, que quem fala aqui sou eu, quem chora aqui sou eu, quem xinga aqui sou eu, blá, blá, blá. E foi assim que João Bicho D'Água, doido de minha cidade, honrou seu nome na praça. Foi gritando no meio da rua, com valentia, pra todo mundo ouvir "homem é eu, cabra da peste", foi gritando assim que ninguém mais tomou pilhéria com ele, a cidade começou a lhe respeitar. Então grito, faço espalhafato, me chamo pra briga, "Aeronauta sou eu, cabra da peste". Preciso assegurar o meu lugar nessa joça, afinal de contas sem entender nada de internet fiz esse blogue, a facão mesmo. Deu um trabalho danado. E fui eu quem pegou no pesado, mouse pra cá, mouse pra lá; eu, essa que vos fala, que não é nenhuma Malu Mader. Por que insisto nessa história de Malu Mader? Faça você sozinho sua interpretação. Estou malcriada hoje, soltando os diabos. Sou agora a menina que deixou de ser besta, de apanhar das colegas, de se escorar na parede. Acho que já aprendi até a dar cascudos. Estou doidinha pra arrumar uma cabeça pra ploft! dar um cascudão bem forte. Igualzinho a muitos que ganhei na infância. É divã? É, Superego; cale-se! Hoje muita gente vai apanhar. Vou arrancar cabeça de muita gente. Já estou sarando, já pensou numa coisa dessas? Só porque resolvi botar a minha máquina de escrever na cama, no meu colo e dedilhar essa prosa. De verdade, só escrevendo existo, só escrevendo sou; se você quiser me levar assim mesmo, pode olhar os dentes.



Imagem: "Sensações", de Tuba Sinnhofer.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As irmãs


E a menina, desse jeitinho aí, vai ao lançamento de Maria e Nilson. Junto com a irmã. As duas cresceram, mas o jeito delas é o mesmo. A menina vestida de verde, eu, sempre afundando dentro da parede, sem saber direito o que fazer com as mãos. A irmã, ladina, estala seus dedos, em festa. Ela é profundamente especial: veja só o seu olhar: arteiro, espirituoso, como quem acabou de chegar de uma corrida de guerrô. Os olhos tristes da outra são uma condenação. O espanto é uma sina. Só escorando na parede é possível estar para os outros.
É no lançamento de Maria e Nilson, as duas irmãs juntas, que a vestida de verde, eu, descobre os malefícios do nome que ela mesma lhe colocou a fim de mais afundar na parede. Descobre que agora só Aeronauta vive, a monstra. Aeronauta eclipsou o seu outro nome, roubou a cena. Nos dois livros, a dedicatória impressa não está para ela, eu, mas para a Aeronauta. Ela sente ciúmes, inveja, ódio dessa impostora que inventou. A irmã, na festa inteira, tenta ajudá-la, mas ela continua se comportando como nessa foto: buscando a parede como apoio frio. A irmã, risonha e espirituosa, tenta ampará-la, tirá-la do meio das estantes da livraria, mas ela quer mesmo é entrar num livro daqueles, de preferência de um que nunca será vendido.
A menina de verde tem dentro de si o demônio clariceano, e quer matar uma das duas. Não a irmã, claro, a irmã será imortal nas suas mãos. Ela quer matar esse personagem que ganhou tanta vida própria a ponto de morar nas dedicatórias que seriam suas. O mal que habita o mundo infantil é genuíno, não se prendem crianças por assassinarem gatos. Ou se mata o personagem, ou se mata quem criou o personagem. Não há mais espaço para uma figura e uma sombra, uma sombra e uma figura. Como realizar o crime perfeito? Dostoievski me espreita, cúmplice, e eu pego na estante Os irmãos Karamazovi.



Imagem: "As irmãs". Década de 70. Retrato de Mozart Santana.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Amanhã, um grande momento




Conheço essa menina linda há muitos anos, pois que fui sua vizinha em 1958, no Chame Chame. Não sei se ela se lembra de mim desse tempo, quando eu ficava espiando de longe seus belos vestidos, costurados com tanta delicadeza por sua mãe. E depois retratada com tanto, mas tanto amor, por seu pai. Lembro-me que brincávamos juntas, de muitas brincadeiras, como boca de forno, cozinhado, pula-corda. E eu, que sempre tive medo de cães, aprendi com ela a amá-los.
Eis que se passaram anos, e um dia ela me achou na blogosfera. Foi no São João do ano passado. Amizade reencontrada, maravilhosa, que me rendeu outras. Com ela vieram Bernardo, Janaína, Judith, Edu, e muitos muitos outros seres desse mundo, inigualáveis. Com ela vieram para minha vida, como presentes que nunca findam, sua fotografia e sua literatura.

O rapaz bonito, também aí em cima, chama-se Nílson, e eu o conheci há um ano. Detectei a beleza de sua alma num dos posts mais corajosos que escrevi. Claro, porque a beleza precisa ser dita, proclamada a todos os ventos, sem nenhum pudor. Tal beleza nasce da conjunção do poeta e do homem que o habita. Tanta humanidade só pode resultar em poesia. É um dos mais completos poetas que conheço.

Essas duas pessoas lindas se encontrarão, amanhã, no Tom do Saber, autografando seus livros, para minha felicidade. Estarei lá, vestida a la década de 50, na fila de autógrafos. O convite está anexado: vamos juntos?



*Não aprendi ainda a colar imagens. Era para todas ficaram lado a lado. Não acertei fazer tão difícil coisa.
Foto de Nílson: Maria Sampaio.
Foto de Maria Sampaio: Mirabeau Sampaio, 1958.

domingo, 30 de agosto de 2009

Amor


Desde a quinta-feira vivo num transe, no qual nem sei como lidar direito. Desde a quinta-feira tenho recebido amor, mas muito amor mesmo. Claro, sempre recebo amor, mas dessa vez a dose tem sido muita, coisa de assombrar. Não sei o que houve no mundo nos últimos dias, qual a energia que ronda o último sol e a última lua; se os anjos resolveram se manifestar, com suas asas nas costas, feito querubins arrebatados; se Deus resolveu perdoar, para sempre, todos os pecados da humanidade. Ou se eu, finalmente, encontrei sintonia com as brisas do mar. Pois que desde a quinta-feira, por ando passo, vou recolhendo presentes: olhares de ternura, abraços intensos, rosas vermelhas, bombons de chocolate, cartões com palavras doces, e uma promessa, ah uma promessa de maciez e tranquilidade. O amor é isso mesmo? Essa coisa malemolente, semelhante a corpo balançando na rede depois do almoço? Essa vontade de ser mãe do mundo? É, levar o mundo pra casa, dar-lhe de presente todos os livros de poesia, afagar-lhe os cabelos longos... Ah, meus amados alunos, como agradecer-lhes a doação dessa coisa viva, pulsante, que traz água nos olhos e sentimento de felicidade? Ah, queridos amigos, como devolver-lhes o carinho da companhia agradável, driblando todos os tédios da existência? O que apenas posso dizer agora, diante dessa embriaguez, é que o amor faz com que a minha alma se parta, desapegada, em mil pedaços, voando sem endereço certo...



Imagem: cartão-de-flores, homenagem de meus alunos.