segunda-feira, 23 de julho de 2007

As "roubadinhas"

Cruz e Souza terminou a vida sendo funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, na condição de arquivista. É sabido que o mesmo foi denunciado à diretoria de tal Empresa em virtude de ter sido encontrado "um poema de sua lavra" em local de trabalho. Lê-se no final do texto denunciador: "Pede-se providências".

Ah, o serviço público e a literatura... Drummond e o Amanuense Belmiro, dois conhecedores do universo burocrático: o primeiro, poeta e funcionário público (declarou muitas vezes que escrevia no expediente); o segundo, personagem aspirante a escritor e funcionário público num romance magistral, hoje esquecido, de Cyro dos Anjos ["O Amanuense Belmiro" (1937)]. Ambos - o poeta e Belmiro - conheciam bem esse mundinho cinzento da burocracia, tanto que o amanuense registra, o tempo todo no seu diário, poemas de Drummond, como a revelar um feliz diálogo entre profundos conhecedores do que há de mais inóspito no destino de um homem.

... E pensar que eu, aos vinte e dois anos, entrei para o serviço público... Enquanto o que mais queria mesmo era ler e escrever versos. Mas eu tinha minhas artimanhas. Levava o livro escondido na bolsa, colocava-o dentro da gaveta de minha mesa e quando o escrivão (trabalhava num cartório) vacilava, eu abria a gaveta e o livro - dando, assim, as minhas roubadinhas. A mesma coisa com a máquina ("facit") de escrever. Às vezes fingia que estava batendo um mandado... que nada!, estava era escrevinhando poesia, versos ingênuos, literatice... Era a maneira que eu tinha de agüentar o linguajar desumano dos processos.

2 comentários:

Personagem Principal disse...

Apesar de ainda não ser func. pública, eu tb faço isso. Sempre tenho alguma versão de bolso pras horinhas de folga. Mas escrever eu não consigo, não. Só à noite, qdo todo mundo já foi se deitar.

Renata Belmonte disse...

Ah, Aeronauta...
Compreendo muito bem a sua angústia. Porque ela também é a minha. Por que não ganho dinheiro como escritora? Por que preciso me fantasiar de advogada para o mundo olhar para mim com respeito? Até quando viverei com livros escondidos na bolsa?
Bjos.