terça-feira, 16 de março de 2010

aquela história


De tanto ouvir aquela história, ela ficou inerente à minha pele. É a história de meu avô, a pessoa que mãe mais adorou no mundo. As heranças de amor são sempre involuntariamente herdadas. E ao vê-la falar nele com os olhos marejados, meu amor cresce mais, tal qual o dela.
Meu avô era tocador de sanfona, aventureiro, mesmo sendo pai de onze filhos.
Meu avô era caixeiro-viajante, sumia no mundo e voltava alegre, cheio de presentes.
Galeanteador, bonitão, namorador.
Sabia todos os artifícios do encanto; sempre calmo, sempre rindo, os olhos apertados.
Um dia demorou mais tempo em sua viagem. Demorou dois meses, três, seis, um ano. Demorou dois anos. Sequer um bilhete, sequer um recado. A família em prantos, mãe sem comer, era muita saudade.
No mesmo dia da partida, uma comadre sumiu.
E o tempo da ausência dos dois, compartilhado.
Morrendo de paixão, sumiram os dois, foram para São Paulo. E São Paulo é terra de nunca mais, lugar longe retado; naquele tempo, quantos dias de viagem eram enfrentados?
Ao certo, não se sabe.
Para voltar, soube-se: dois anos. Voltou feliz, satisfeito, sem a comadre. Voltou para os filhos, para a mulher, para a família. A comadre ele deixou, sem ninguém, num ponto qualquer da estrada.
Essa história é forte; essa história é lírica, ingrata, perpétua.
Vertiginosa, açoita minha alma.



Imagem: "Revendo as cicatrizes", por Luara Monteiro.
(www.flickr.com)

8 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Grandissíssima História! E você escrevendo, Aero! Maior.

Gerana Damulakis disse...

E vc está escrevendo a história de uma forma genial.
aero: vc precisa escrever o seu O Mundo, vc escreve bem demais.

Bernardo Guimarães disse...

maravilha! não há mais homens porretas como esse seu avô!

Terráqueo disse...

Essa frase já seria uma belíssima postagem.

"As heranças de amor são sempre involuntariamente herdadas."

Janaina Amado disse...

Açoitou a minha alma, também: será por causa desse amor assim impossível que mãe é sempre tão dura, ao mesmo tempo tão magnética? E a comadre, com que olhos teria ficado na estrada? E...
Texto bom é o que deixa o leitor cheios de perguntas.

I.Moniz Pacheco disse...

Que estória ! E contada do seu jeito fica especial.

Nilson disse...

Grande história, mesmo! Riquíssimo personagem esse avô. E essa avó!!!

Antonio Sávio disse...

Nossa, que história.