terça-feira, 30 de março de 2010

baixas temperaturas


Na maioria das vezes na academia a literatura vira algo enlatado. Lembram-se do quitute? É, a literatura fica parecendo quitute: ainda gostoso, mas artificial. Bota-se quitute, ou seja, "literatura" dentro do pão e tudo indica que matou a fome. Quem não se lembra do quitute (ou não conhece) vale outra comida enlatada da contemporaneidade: dá no mesmo. É assim que sentimos a literatura, portanto, nas salas acadêmicas, principalmente em defesas de mestrado e doutorado. Aquilo que o escritor escreveu, e nós lemos em momentos epifânicos, se transforma num conglomerado de terminologias, adereços e outras coisas extremamente óbvias, porém ditas num palavreado técnico pomposo, corroborado pelas palavras de um autor-teórico-da-moda.
Por exemplo, ontem, em plena sessão de defesa de mestrado, a professora doutora lança mão de Umberto Eco para dizer que, em todo texto, é o leitor o complementador de sua significação. Ora, isso é algo extremamente óbvio. Todo leitor de verdade sabe disso. Além do mais os estudiosos da estética da recepção bateram tanto nesse ponto... O mais importante, porém, é que todo leitor de verdade sabe dessas coisas. É preciso, pois, correr atrás de um teórico para validar tamanha obviedade?
Nesses momentos acadêmicos é que percebo o quanto a literatura virou componente de hospital. Nesses ambientes tudo é esterilizado, a fala dos professores e a própria postura deles sentados à mesa, avaliando o trabalho proposto, é de gelo e solenidade, o contrário, portanto, das altas temperaturas do livro literário. Tudo vira jargão e não paixão. Coitada da literatura, perecendo num leito de uti, tendo como enfermeiros homens de jaleco branco e mãos frias.



Imagem: "O último cubo de gelo", por renatomoll.
(www.flickr.com)

10 comentários:

lagarta disse...

Assim igualmente me sinto, querida amiga. "Militamos", pois, na mesma brigada, a que insiste no respeito à literatura e, não, na submissão à teorice apenas! Lindo texto, queria eu que os "acadêmicos cujos" (como diria Manoel de Barros) lessem e entendessem... Mas eles querem a teoria pelo imenso medo que nutrem da vida, imprevista, inacorrentável, como é a poesia.
Beijos e saudades.

Maria Muadiê disse...

Eu concordo com vc.. E sabe o que acho? Que a literatura não está nem aí, segue inabalável e indiferente a tudo isso, justamente porque ela gosta mesmo é dos leitores.

beijo

Anônimo disse...

Na verdade, a literatura virou o creme do café. Ela deveria ser o café, mas a espuma não permite o sabor chegar. comenta-se da espuma, óbvio que não está em questão o sabor...O trabalho de Neri tem muito sabor .....bla bla bla.... Abraços!!! Ricardo Nonato

Flamarion Silva disse...

Literatura de Academia não é para quem ama Literatura, para quem faz Literatura. O espaço acadêmico realmente prende e corta as asas da Literatura. Na Academia participei de Oficina de Criação Literária, a professora era/é ótima, mas naquele local não produzi nada. Uma vez me posicionei a respeito de poesia e música, o professor, que também é excelente escritor, teve a delicadeza de dizer: "o que você acha não importa." Fazer o que, senhor? Mainha, lá no interior, me ensinou a não responder aos mais velhos, para não ser estúpido. Hoje, entendo que ela só queria dizer: "não se iguale a eles, meu filho".
É isso, há muitas coisas boas na Academia, há os bons professores, os amigos, o conhecimento. E o diploma, é claro.
Abraços, Aero.
Ah, e quantas vezes ouvi, em tom de piada: "A obra é aberta, mas não é escancarada". Blá blá blá...

Katia disse...

É por esses e outras que segui na contramão desse universo e prefiro tudo in natura. Suas palavras são a mais pura tradução do que o mundo acadêmico (esse, ao menos, que conheço) faz da beleza e do encanto das palavras e do conhecimento, enlatando-os! Sua leitora, discreta de longas datas.
Um abraço grande.

Bernardo Guimarães disse...

perfeito, mas os de jaleco branco, muitos deles, tem as mãos e os corações que aquecem a moribunda; alguns, poucos, a salvam.

Gerana Damulakis disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maria guimarães sampaio disse...

Gosto dos comentários publicados, de Maria Muadiê diz o que eu quero dizer:
"Que a literatura não está nem aí, segue inabalável e indiferente a tudo isso, justamente porque ela gosta mesmo é dos leitores."

Marta F. disse...

Literatura. Me lembra Shopenhauer "Ler é pensar o pensamento alheio, é preciso exercitar o pensamento próprio"

Vc salva, entre outros, a literatura.

aeronauta disse...

Lagarta: assim acredito, querida, nessa militância. Saudades também.
Marta: concordo com você, mas também não posso deixar de acreditar que podemos fazer muito, levando a literatura para quem não tem acesso; como nas escolas e universidades, por exemplo.
Ricardo: ainda bem que Neri salvou a literatura ali na sua defesa.
Flamarion: você trouxe muito bem as cenas mais recorrentes no meio acadêmico. Adorei sua história de mainha.
Kátia: é sempre bom receber sua visita.("prefiro tudo in natura", gostei disso)
Bernardo: é verdade - você ilustrou muito bem esse "hospital"...
Maria: acredito que a literatura precisa de todos nós, para que os livros de autoajuda e a mediocridade não ganhem as novas gerações.
Marta F.: sempre boa a sua visita. Obrigada.