quarta-feira, 20 de julho de 2011

a flor amarela e mórbida


Meu querido Brás Cubas:

Sou assumidamente hipocondríaca: herdei a flor amarela e mórbida, a Incurável, a Terrível, a maior doença de todos os séculos. Não tenho sequer teu humor ácido, inteligente, e mesmo estando na quarta edição de vida, minhas erratas foram todas inúteis. Não aprendi absolutamente nada, sou rude e inepta. Assusta-me a mediocridade dos homens, na qual me instalo, grotesca e só. Meus amores sequer dariam páginas como as tuas, tão belas de poesia e escárnio. Meus amores foram todos inventados, saídos de uma imaginação parva, ingênua. E quando eu chegar aos cinquenta, sei que não terei a tua nobreza de entrar para alguma Ordem caridosa. Sou egoísta, preguiçosa, e completamente triste. Ou seja, assumidamente hipocondríaca: nem teu emplasto daria jeito a essa melancolia insistente que brota, dia a dia, no jardim seco e sem proveito que trago em mim.

4 comentários:

Anônimo disse...

Ora, Aero,

"O primeiro amor passou
O segundo amor passou
O terceiro amor passou
Mas o coração continua".

Maria Muadiê disse...

Vejo um livro vigoroso nascendo nas páginas do seu blog

Lidi disse...

Concordo em gênero, número e grau com a Martha. Bjs

bem disse...

A percepção da "a flor amarela e mórbida" para uns, simples imaginário; para outros, o entendimento da condição humana.

Saldo na vida ou na morte (positivo ou negativo) depende das edições provisórias, a definitiva entrega-se aos vermes...

bjssss... querida.

Dubem