quarta-feira, 3 de agosto de 2011

descarada e inútil


Toda perdição está na linguagem. O que vou falar? É sempre um perigo o que vou falar. Palavra é armadilha, é caricatura, é gregarismo. Meu Deus, dai-me o poder de me livrar da língua, dai-me a invisibilidade pura, o silêncio sem signos. É ridículo o ser humano falando, feito papagaio iludido, cantando o hino. Muitos são os que não se dão conta de que tudo que falam é perdido, sonoro desperdício do que chamam razão. Deixai-me Deus, com minha estupidez, deixai-me, sei não. Sei não se canto, se harmonizo o caos falido que transforma a língua em riso, não estado de tensão. Falam como caminham, como suam, como tomam banho. Palavra é sabão passando na pele, pratos lavados na pia, com a precisão lívida das mãos. Sabão que é vendido em vários lugares, na solidão igual do que se reproduz.
Língua que não vale mais nada no mercado, linguagem descarada e inútil, eu te persigo com a força vã dos desesperados.

7 comentários:

Marta F. disse...

Aprecio sua escrita esmerilhada.

Marta F.

Marta F. disse...

Aprecio sua escrita esmerilhada.

Marta F.

Bípede Falante disse...

Palavra é um caminho sem volta e azar do caminhante se não souber por onde ir, como ir e por que ir!
beijosss

Carlos Alberto Santos Lima FIlho disse...

Eita língua!

Lidi disse...

"Toda perdição está na linguagem. O que vou falar? É sempre um perigo o que vou falar." Sem dúvida, é sempre um perigo. Às vezes, falamos algo e nos arrependemos depois, mas aí já é tarde, as palavras já nos trouxeram sofrimento e ao outro. Hoje, especialmente, estou com raiva das palavras, mas continuo perseguindo algumas que, agora, venham em meu auxílio.

Anônimo disse...

Aero,

Como tantas outras, você já escreveu uma coisa interessante antes, bem antes! Quando ainda éramos alegres e jovens (rs):
..."e calar, agora, qualquer coisa que ameace falar. Ouvir basta; sentir é preciso"...
Falar sempre foi mesmo um "sonoro desperdício".
Você tem razão e sabe o que fala.

Abraços!

Desculpe-me mais uma vez o anonimato. Mas tenho gostado cada vez mais dele. Ele é tão interessante quanto emudecer. De propósito, é claro.

aeronauta disse...

Anônimo, acho que tinha dezessete anos quando escrevi esses versos lembrados por você. Puxa, você ainda se lembra! Como fico feliz com isso!