terça-feira, 9 de agosto de 2011

o retorno de Salvo


Salvo. Sempre vestia uma camisa azul marca volta ao mundo, bem fininha, uma calça de tergal e levava um classificador amarelo ensebado debaixo do braço. Era alto, um pouco roliço, negro, e quando eu o avistava no início da rua meu coração batia acelerado. Batia mais acelerado ainda quando eu estava lá no fundo da casa e ouvia suas palmas na janela e o som do classificador zunindo no parapeito com estardalhaço, junto com seu grito ecoando forte. Era ele chegando! Meu coração pulava junto com minhas pernas correndo casa afora para ver o que Salvo trazia. Salvo sempre trazia boas coisas. Emissário dos envelopes lacrados, com meu nome escrito atrás precedido pelos dizeres: "Para a jovem..." Na verdade eu amava demais esse homem, que tinha a cara cheia de verrugas e que gostava de andar pelas ruas com o passo solene e arrastado de quem sabe o que veio fazer no mundo.
Quando Salvo morreu, o carteiro que o substituiu não tinha a menor parcela de poesia. Exibia aquela fardinha amarela e azul, entregando cartas não a pé, mas montado numa bicicleta metida a besta. Foi desse tempo pra cá que as cartas começaram a desaparecer, e no lugar delas chegarem apenas faturas para pagamento de alguma coisa. O que me pergunto, desde a ida de Salvo para o céu dos carteiros perfeitos, era se ainda seria possível sentir aquela emoção tão antiga. Isso porque morando em apartamento, e pegando correspondência dentro de uma caixa parecida com cova emparedada de cemitério, nunca mais tinha visto um carteiro de verdade.
Porém, ontem um bateu no portão daqui de casa. Saí correndo, como só corri aos quinze. Vi que ele trazia um envelope médio, era um pacote, o livro. De repente não era mais um carteiro comum, fardado, que ali estava, bem próximo a mim. Salvo tomava seu posto e me entregava rindo, com a felicidade cúmplice da minha, o livro "A chuva de Maria", de minha amiga Martha Galrão. E ainda me disse assim, gritando, como sempre fazia todas as vezes em que batia na minha janela: "Menina, você é a pessoa que mais recebe cartas nessa cidade!"

7 comentários:

M. disse...

Quem bom que chegou. Martha que pediu para eu conseguir seu endereço. Bjs.

Maria Muadiê disse...

Ô, ângela, que lindo.

Anônimo disse...

"Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com a carta na mão, ante surpresa tão rude, nem sei como pude chegar ao portão"...
Salvo...! Que lembrança maravilhosa! Que saudade daquela gente!
Hoje a nossa terrinha tá tão esquisita! Tão desabitada daquela gente!

Bípede Falante disse...

Que adorável história e que inveja dessa chuva fazendo toque-toque na sua porta :)
beijosss

Anônimo disse...

Que homenágem justa! Como queria ver seu nome, seu nome dando nome a uma nova rua de Andaraí como tambem a de outros personágens de nossa terrinha que jamais morrerão: Bicho D'água, João da Jega, Laluzinha, Maju, Seu Dé e sua introdução do Hino nacional "baram ram chim, baram ram cim, baram ram cim bam. Homenágem por o que são, não por o que tem. Uma Justa Homenágem.

Chorik disse...

E aguarde que vem mais!

MeandYou disse...

Que legal, como você escreve bonito, transforma em um conto lindo para dizer que chegou um livro esperado de verdade! amei!

Prestigie a nova poetisa que está lá hoje no MeandYou, te aguardo.
bjs cariocas