sexta-feira, 9 de setembro de 2011

fragmentos circenses


Minha irmã sempre me diz: "Você nunca perderá essa cara de pobre". Mas se eu sou pobre?, respondo. "Pobre da roça", replica ela. "Pobre da roça tem cara de pobre da roça onde ele for, mesmo vestido de cetim na entrega do oscar", diz ela. É a herança congênita de Macabéa, digo eu. Quem leva para sempre na vida a cara de pobre da roça terá panos na cara, mesmo que esteja fazendo tratamento de pele com o melhor dermatologista da cidade grande. Panos enormes na cara, e esse jeito de tabaroa, que nunca perderá. Esse jeito acanhado de quem busca a parede, sempre a parede do canto para se apoiar, livrando-se do restante do mundo. Jeito de quem não quer ser visto. Jeito de quem quer passar despercebido, de uma vez por todas.
Quando eu tinha dez anos de idade o retratista chegou lá em casa, numa noite de são joão, e eu, quando o vi, me escondi debaixo do sofá. Só que sempre fui desajeitada, me escondi mas deixei os pés de fora. O retratista mandou brasa e tirou o retrato dos pés do lado de fora. Para todo mundo que chegava lá em casa mãe prontamente ia buscar o retrato com fins de exibição: virei atração de circo de péssima categoria. Só que certa tarde chegou lá em casa uma professora, uma professora delicada, que talvez tenha lido Clarice Lispector, e se interessou muito pelo retrato. Interessou-se tanto que pediu aquela foto de presente. Claro, na mesma hora o retrato estava nas suas mãos; afinal, para que mãe queria guardar aquilo? Todo mundo já riu o suficiente com ele, e o circo, como já disse, era de péssima categoria.


Imagem: www.google.com.br

5 comentários:

M. disse...

Você é magnífica! Que manacial de histórias! Bjs, M.

Anônimo disse...

Seu jeito de se mostrar é este e ponto final. Escreva, crie e nós nos deliciamos em tuas palavras.

Maria Muadiê disse...

queria sem palavras dizer que li.
estou aqui com vc e sua bela letra

Sandra disse...

Outro dia comentava com um amigo sobre seu blog e seus escritos e falei também sobre sua "brejeirice". Como ela é bela, forte e não vitimada. Você jamais será pobre. A sua riqueza é bem mais sutil e nem todos podem percebe-la. Abraço.

aeronauta disse...

M., Anônimo, Martha, Sandra: bom demais ter leitores tão sensíveis como vocês. Bjos.