quarta-feira, 7 de setembro de 2011

marcha, soldado


Sair do senso comum sempre foi ambição da literatura, dos escritores. Mas não houve quem mais conseguiu isso que Kafka. Flaubert conseguiu delatar o senso comum com "Bouvard e Pécuchet", e Kafka conseguiu driblar o senso comum com toda a sua obra, e no próprio corpo da linguagem; uma linguagem estranha, em que o homem é posto em exílio perpétuo, e onde há possível esperança ou redenção, ou não: nenhuma esperança, nenhuma redenção. Tudo cabe dentro da interpretação da obra de Kafka, ao mesmo tempo em que nada cabe. Quem diz bem, e belamente, sobre ela é Maurice Blanchot, num livro magnífico: "A parte do fogo".
Devia ser essa a ambição de todo homem, em toda e qualquer instância: sair do senso comum. Tentar não se repetir, tentar dizer e fazer coisas diferentes, livrar-se de uma vez por todas desse legado medíocre e estúpido que é o convencionalismo humano; livrar-se, enfim, de uma certa voz de comando que sempre ecoa nas nossas costas. Uma voz de comando que se diz individual ("a voz do povo... etc"), mas que de individual não tem nada. Aliás, há algo individual no mundo? Existe algo individual em mim? Estou contaminada pelo discurso alheio, não há nada de novo em mim a não ser a repetida estupidez. É preciso ser vigilante de si, em extrema e lúcida clarividência. Vigiar a si para só depois vigiar a dita e conclamada "sociedade", e não o contrário. Vigiar a tal "sociedade" sem se vigiar é a repetição da estupidez, é ser boneco de engonço, balançando a cabeça e marchando - porque todos marcham.

3 comentários:

Chorik disse...

Será que somos vítimas do inconsciente coletivo?
Ei, Aero, você anda indignada?

maray disse...

ao mesmo tempo, fazer parte de um todo, em que vc se vê repetindo coisas instintivamente, como o animal que somos, não é uma coisa ruim. Eu me reconforto nessa identidade compartilhada. Nem sempre o individualismo e a "criatividade" pessoais são a melhor saída. A saída coletiva é mais ampla e duradoura. Acho eu.
Mas posso estar coberta de engano, hehehe...

aeronauta disse...

Oi, Chorik, vítimas somos de um inconsciente coletivo absurdo.
Maray: respeito seu ponto de vista, mas acho sim uma coisa bastante ruim repetir o que os outros fazem e dizem. A coletividade quase sempre traduz uma doença sem cura. Mas isso é apenas o que acho. Abraços. Obrigada pela visita.