terça-feira, 25 de agosto de 2009

se você deixar


Você tem jeito de homem da roça, trabalhador de enxada, sertanejo dos bons. Pouca fala, muito o que fazer. Pôr um cigarro de palha na ponta de sua boca e esperar a baforada seria algo por demais maravilhoso. Pegar você e colocar num banco, sentado na porta, que epifania! O melhor de tudo é sua singularidade: você não é estereotipado - nada pior do que sertanejo estereotipado, desses que a gente vê em certos teatros. Você é o que é, homem largado no mundo, sem se importar com as rugas no rosto nem com os botões da camisa. Personagem do velho Graça, paisagem transformada em gente. Ora árvore ressequida, galhos secos decorando a tarde mais triste, ora riacho fremente, devastadora cheia esverdeando tudo. Deve ser muito boa a sua companhia, para o resto dos tempos. Se você deixar, ficarei aqui, todos os dias, lhe olhando em silêncio, como quem escuta água em beira de rio.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Uma saída


Aprendi com o ex-macaco kafkiano que não existe por que sonhar com liberdade, mas apenas com uma saída. É preciso encontrar uma saída. Dentro da jaula, embalada para o circo de variedades, preciso encontrar uma saída, e por aqui mesmo. Batendo com minha cara no caixote. É preciso que eu me curve, minhas costas doem, meu pescoço tem um nó bem naquele lugar perto da coluna, chamado vulgarmente por minha irmã de cupim de boi. Eta nó desgraçado de grande e dolorido. É preciso que eu me desentorte, fique em pé com as mãos na cintura, buscando quem sabe o sonho de ser bailarina; mas o lugar é limitado para minha altura, ficar em pé nem pensar, mesmo eu medindo um metro e cinquenta e dois.
A saída que preciso buscar não pode ser a mesma do macaco kafkiano. Não quero imitá-lo, nem aos homens nem às mulheres que vêm à jaula observar meu sofrimento. Busco outra saída, e passo ao largo das imitações. Não quero outra condição humana, quero continuar sendo eu, mesmo dentro dessa morada apertada, com as costas lavadas de suor, as pernas agachadas, e a corcunda feito um morro. Quero, a todo custo, preservar minha sensualidade dessa limitação de estar em muito menos de um metro quadrado de cubículo. A sorte é que guardei minha cara do espetáculo público: joguei nela uma máscara qualquer, desenhada a bico de pena por um desenhistazinho que chegou um dia para me ver. Condoído daquela minha exposição ao sol e ao vento, ao riso e ao escárnio, desenhou num papel, e depois cortou, o rosto de uma atriz. Não a conheço. É melhor assim. E a primeira das saídas talvez seja mesmo esta: ninguém imaginar o que há por trás desse meu outro rosto.



Imagem: "saída", por eduhhz.
(www.flickr.com)

nonsense


Qual é o segredo mesmo? Meu coração bate, espreita o seu, em vigília permanente. De sua casa saem pai, mãe, minha avó, e entram numa caminhonete. Chego de madrugada, a lua cai sobre uma kombi verde, estacionada na porta, indo sozinha, silenciosa e triste. Dentro dela um, de seus onze filhos, dirige para trás. Toco a campainha, vejo que você toma banho, o chuveiro forte ressoa cá fora. Toco a campainha. Duas mulheres, à maneira de porteiro, vigiam a porta. A casa está cheia: muitos parentes você tem, talvez agregados, casa pobre, você lá dentro, tomando banho. Isso é o que elas dizem, mulheres de lábios grossos, perguntando o que quero com você. Com medo do julgamento, digo a coisa mais inocente, mais pueril. E para que me deixem entrar, pergunto por sua mulher. E eu, que pensava que finalmente sua mulher tindo ido embora, vejo - mostrada por elas - sua mulher lá fora, no jardim repleto de cadeiras de igreja, inclusive sentada numa, me vigiando também. O mundo em vigília, e você ainda não apareceu, o banheiro lhe esconde. É feriado, 24 de dezembro. Já tirei muitos alfinetes do chão, depois que lhe vi abraçando a filha da amante que foi de meu pai. Ela lhe abraçou, me atacando de um passado herdado de graça, sem nenhuma dor. Mas você veio ao meu encontro, e me abraçou também. E ela vigiando, de perto, o álbum de retratos que você me mostrava. Depois mãe e pai e minha irmã se deitaram naquele chão, naquele chão, cheio de alfinetes. Era feriado. Eu voltava para casa, e vi que estava no meio da rua apenas com as roupas de baixo, e fiquei morrendo de vergonha de minhas gordurinhas que precisavam se esconder num vestido, enquanto me lembrei que deveria ter pedido à mãe aquele xale que ela levava nos ombros enquanto dormia na sala de alfinetes. Voltei então, voltei à sua casa. O chuveiro forte ressoava na porta. Duas mulheres de lábios grossos vigiavam. Qual o segredo, meu Deus?, qual o segredo? Meu sonho não mostra. Ele quer apenas sua cabeça no meu colo, seus cabelos sob meus dedos, assim que você sair do chuveiro.



Imagem: "about my admiration for alejandro jodorowski II", por sternenrauscher.
(www.flickr.com)

domingo, 23 de agosto de 2009

brincando com Deus


O domingo serve para mostrar o quanto a vida é besta. Besta, bestíssima. E isso não é um lamento. É uma constatação. O domingo serve para jogar no meu estômago uma bola de meia, daquelas de antigamente, dos baleados no meio da rua. Só que essa bola de meia está vazia, não tem meia dentro. É oca, inteiramente, e por isso o meu estômago dói mais. A bola bate e volta, bate e volta, bate e volta.
Fico prostrada nessa brincadeira boba, sem forças para sair dela.
Sinto vontades de chamar Deus, brincalhão nato, que acha graça dessas vidas abestalhadas, sem rumo nem missão.
Implorar-lhe tirar esse domingo de minha frente, essa bola de meia oca.
Mas ele faz melhor. Rindo de se acabar, joga de lá pra cá uma bola maior, de futebol.



Imagem: "Ressonância existencial", Por Beccari Arts.
(www.flickr.com)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Diante da lei


Como dois seres diante da lei, te espero em casa. Escolhi, de muito bom grado, uma calcinha vermelha, um sutiã vermelho, e um lindo, lindo vestido vermelho. A lei nos espera, como quem tem hora marcada; por trás dos telhados, dentro das portas dos sanitários, nos buracos das fechaduras: a lei nos olha. Que importa? Diante da lei seremos mortos? Que importa? Importa é que toques no ponto mais erótico de minha alma, e o resto que se dane. Se quiseres, matarei o primeiro porteiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, até chegar ao grande soberano. É justo chegar até ele. Chegaremos juntos, se quiseres. Se não, me espere, até que eu, sozinha, mate todos eles. Não restará vestígios de qualquer delito, pois que diante da lei não se pode ser ingênuo. Guardarei minhas inocências sob o tapete do soberano, empurrando-as, uma a uma, para fora do mundo. Estarei frente a frente com ele, num espelho. Calma, me espere em casa. Estarei indo, de vermelho.



Imagem: "amarelo sob vermelho", galeria de orxeira.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um baile


O que mais gosto na Aeronauta é que ela é corajosa. Diz tudo o que sente, não engole nada, não sofre de indigestão. Não deixa as coisas que a atormentam passarem em branco: delata. É a justiceira de si mesma e do mundo. Enquanto que eu fico no "ah é, é?", ela já tem a resposta na ponta da língua. Por isso falta-lhe meu senso de humor. Deveria ser o contrário, mas não é. Vá lá entender as criaturas humanas. Aeronauta não é bem humorada, mas tem o humor ácido, ferino. Eu sou mais aquela que gosta de dar gaitadas, levar na flauta da brincadeira meus ódios mais intensos. Fico horas com minha irmã ao telefone, rindo de tanta coisa besta; mais horas com M., e mais horas com Renata. São minhas amigas de riso ao telefone, que traduz uma sustentável e maravilhosa leveza diante da vida. Aeronauta não, empertiga-se e tenta construir um riso literário. Aeronauta pode ser linda no imaginário de quem a lê, enquanto que eu sou baixinha e não cumpro, graças, nenhum padrão de beleza. Nunca consegui sair da roça, Aeronauta sabe disso e me aprova. Ela sabe de minhas mais feias esquisitices, da minha falta de requinte, e acha isso verdadeiro. Eu não. Acho isso breguice. Mas sou e preservo, não quero mudar. Aeronauta me ajuda a me aceitar assim. Devo muito a ela, lá isto é verdade. Só o fato de não me engasgar com injustiças, é uma dádiva. Oh, minha querida Aeronauta, já fui muito injusta com você. Vamos fazer as pazes? Que tal um baile? Lá escolheremos o mesmo rapaz para a dança, a dança que começa com uma valsa; e que seja uma valsa tão grande, tão grande, que nunca nunca acabe...


Imagem: "valsa aérea", de Tati1211.
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domingo, 16 de agosto de 2009

Domingo, 02 de agosto


Alguns deles ali, sentados na porta do restaurante, à nossa espera. Maria Sampaio, Marcus Gusmão e sua filha Luísa, e Nílson. Chegamos eu e Renata, juntas. Já conhecia Nílson através dos lugares-comuns e não-comuns armados pelo Destino. Tinha visto Maria Sampaio e Marcus, certa feita, de longe. Saber da existência de alguém virtual, notar sua presença em corpo físico, é uma emoção muito grande. E naquele finalzinho de domingo eu viveria isso, agora de perto, no lugar da outra. Nunca competirei com Aeronauta, ela já conseguiu - e muito bem - seu lugar no mundo. A chorona Aeronauta parece que sabe conquistar gente. Confesso que tenho dela um certo ressentimento, uma pontinha doentia de inveja. Porque eu, ah eu sou um desapontamento. Notei isso logo de cara, na porta do restaurante. Para esse dia resolvi comprar um vestido cor de rosa choque (quando o comprei, lembro que refleti: esse levanta até defunto), mas de nada adiantou. Ali nitidamente eu era uma intrusa. E me portei como deveria: no meu lugar. Uma intrusa boca fechada. Não sabia o que dizer. Dizer o quê, meu Deus? Disse umas besteirinhas para cada um deles, e entramos, sentamos. (A primeira vez que senti aquele negócio estranho que estava sentindo, foi aos seis anos, no meu primeiro dia de aula.) Marcus Gusmão, conversador nato, abriu a prosa, e a prosa ficou mesmo lá entre ele, Maria (linda!), Renata, Luísa e Nílson. Eu olhando para o oriente. Não, meus queridos, Aeronauta não estava ali. Quem estava ali era eu, euzinha, com aquele vestido cor de rosa choque, deslocadíssima. Vocês notaram? Oh, queridos, vocês são tão educados, nem riram de mim, obrigada, tá?
Decididamente eu e Nílson, mesmo estando frente a frente na mesa, não conseguíamos conversar. Isso porque somos dois tímidos refletidos. Aeronauta consegue tirar dois dedos de prosa de Nílson, mas eu, eu não. De repente chegou Marta e família. Marta, conhecida minha de mais de quatro séculos. Aí começamos uma prosa boa, de literatura, de escola, disso e daquilo. Claramente quatro grupos se formaram: Maria, Gusmão, Renata e Luísa; eu e Marta; Nílson e Haroldo, marido de Marta; e as duas meninas que vieram com eles. Fui ao banheiro, Marta e os seus foram embora, e Maria, perspicaz, notando minha falta de entrosamento, trocou de lugar comigo, me colocando no meio deles. Aí eu pude mostrar minha verve menina da ilha. Marcus Gusmão adorou. Viu que tenho a língua envenenada, gosto de comer carne de cristão. Maria se acabou de rir. Como gostei de Maria! Nílson também riu das besteiras que eu disse. A noite acabava. Na saída, nunca esquecerei o que ouvi de Maria:
- Gostei mais de você que de Aeronauta.


Foto de Maria Sampaio.