
Alguns deles ali, sentados na porta do restaurante, à nossa espera. Maria Sampaio, Marcus Gusmão e sua filha Luísa, e Nílson. Chegamos eu e Renata, juntas. Já conhecia Nílson através dos lugares-comuns e não-comuns armados pelo Destino. Tinha visto Maria Sampaio e Marcus, certa feita, de longe. Saber da existência de alguém virtual, notar sua presença em corpo físico, é uma emoção muito grande. E naquele finalzinho de domingo eu viveria isso, agora de perto, no lugar da outra. Nunca competirei com Aeronauta, ela já conseguiu - e muito bem - seu lugar no mundo. A chorona Aeronauta parece que sabe conquistar gente. Confesso que tenho dela um certo ressentimento, uma pontinha doentia de inveja. Porque eu, ah eu sou um desapontamento. Notei isso logo de cara, na porta do restaurante. Para esse dia resolvi comprar um vestido cor de rosa choque (quando o comprei, lembro que refleti: esse levanta até defunto), mas de nada adiantou. Ali nitidamente eu era uma intrusa. E me portei como deveria: no meu lugar. Uma intrusa boca fechada. Não sabia o que dizer. Dizer o quê, meu Deus? Disse umas besteirinhas para cada um deles, e entramos, sentamos. (A primeira vez que senti aquele negócio estranho que estava sentindo, foi aos seis anos, no meu primeiro dia de aula.) Marcus Gusmão, conversador nato, abriu a prosa, e a prosa ficou mesmo lá entre ele, Maria (linda!), Renata, Luísa e Nílson. Eu olhando para o oriente. Não, meus queridos, Aeronauta não estava ali. Quem estava ali era eu, euzinha, com aquele vestido cor de rosa choque, deslocadíssima. Vocês notaram? Oh, queridos, vocês são tão educados, nem riram de mim, obrigada, tá?
Decididamente eu e Nílson, mesmo estando frente a frente na mesa, não conseguíamos conversar. Isso porque somos dois tímidos refletidos. Aeronauta consegue tirar dois dedos de prosa de Nílson, mas eu, eu não. De repente chegou Marta e família. Marta, conhecida minha de mais de quatro séculos. Aí começamos uma prosa boa, de literatura, de escola, disso e daquilo. Claramente quatro grupos se formaram: Maria, Gusmão, Renata e Luísa; eu e Marta; Nílson e Haroldo, marido de Marta; e as duas meninas que vieram com eles. Fui ao banheiro, Marta e os seus foram embora, e Maria, perspicaz, notando minha falta de entrosamento, trocou de lugar comigo, me colocando no meio deles. Aí eu pude mostrar minha verve menina da ilha. Marcus Gusmão adorou. Viu que tenho a língua envenenada, gosto de comer carne de cristão. Maria se acabou de rir. Como gostei de Maria! Nílson também riu das besteiras que eu disse. A noite acabava. Na saída, nunca esquecerei o que ouvi de Maria:
- Gostei mais de você que de Aeronauta.
Foto de Maria Sampaio.