segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um baile


O que mais gosto na Aeronauta é que ela é corajosa. Diz tudo o que sente, não engole nada, não sofre de indigestão. Não deixa as coisas que a atormentam passarem em branco: delata. É a justiceira de si mesma e do mundo. Enquanto que eu fico no "ah é, é?", ela já tem a resposta na ponta da língua. Por isso falta-lhe meu senso de humor. Deveria ser o contrário, mas não é. Vá lá entender as criaturas humanas. Aeronauta não é bem humorada, mas tem o humor ácido, ferino. Eu sou mais aquela que gosta de dar gaitadas, levar na flauta da brincadeira meus ódios mais intensos. Fico horas com minha irmã ao telefone, rindo de tanta coisa besta; mais horas com M., e mais horas com Renata. São minhas amigas de riso ao telefone, que traduz uma sustentável e maravilhosa leveza diante da vida. Aeronauta não, empertiga-se e tenta construir um riso literário. Aeronauta pode ser linda no imaginário de quem a lê, enquanto que eu sou baixinha e não cumpro, graças, nenhum padrão de beleza. Nunca consegui sair da roça, Aeronauta sabe disso e me aprova. Ela sabe de minhas mais feias esquisitices, da minha falta de requinte, e acha isso verdadeiro. Eu não. Acho isso breguice. Mas sou e preservo, não quero mudar. Aeronauta me ajuda a me aceitar assim. Devo muito a ela, lá isto é verdade. Só o fato de não me engasgar com injustiças, é uma dádiva. Oh, minha querida Aeronauta, já fui muito injusta com você. Vamos fazer as pazes? Que tal um baile? Lá escolheremos o mesmo rapaz para a dança, a dança que começa com uma valsa; e que seja uma valsa tão grande, tão grande, que nunca nunca acabe...


Imagem: "valsa aérea", de Tati1211.
(www.flickr.com)

8 comentários:

Renata Belmonte disse...

"Só o fato de não me engasgar com injustiças, é uma dádiva."
É mesmo, amiga. Adoro dar risada com você de tudo, menos de injustiças, isso é assunto que não tem a menor graça. Queria ter eu uma Aeronauta para me proteger.
bjs

Edu O. disse...

é tão bom fazer as pazes com um lado que somos nós mesmos!

maria guimarães sampaio disse...

Essamenina querida, que fantástico essa transação de sua conversa com Aeronauta. Você escreve, ESCREVE! Tanto faz você como Aero - sem disputas entre uma e outra, cada uma no seu cada qual. Arrasam. Beijos de
Maria --- ah! no post anterior nem agradeci suas boas palavras para mim, às quais se juntaram as de Gerana e Marcus. Grata a todos.

imonizpacheco disse...

Casamento perfeito.

Gerana Damulakis disse...

Jamais vi duas, no sentido de, quando uma está, a outra não está.

Alguém que admira seus textos disse...

Eu só conheço a Aeronauta deste blogue, mas ela também é você. A diferença é que Aeronauta tem poderes, por não ter uma identidade certa ou um rosto, e por isso pode dizer coisas que você sem ela não seria capaz. Porque sem ela você está suscetível a se engasgar muito e a conviver harmoniosamente com injusiças. Ela é seu escudo. Talvez quem você gostaria de ser, talvez quem você seja de verdade. Ou, ainda, talvez não seja nada disso e se resuma apenas ao meu ponto de vista.

Sigo admirando seus textos. Boa noite!

Nílson disse...

Bela maneira de reconciliar-se consigo mesma. Um baile, esse seu texto!!

Janaina Amado disse...

Todo mundo tem seu lado aeronauta. O mais bacana é saber que as duas são você. O texto é ótimo.