segunda-feira, 10 de agosto de 2009

forte, sem nenhuma doença


Ontem viajei o dia inteiro, cheguei à noite muito cansada, e só abrindo os blogues me dei conta de que era o dia dos pais. O que imediatamente me lembrei foi do sonho que tive com pai na noite anterior. Só que não foi um sonho feliz. Foi um sonho triste, a repetição daqueles seus últimos momentos, quando bem doente ficou pequenininho, frágil, parecendo uma criança. Isso já faz quinze anos, e ele, puxa vida, continua doente. Quero-o forte, como antes, assistindo ao jornal nacional e me explicando as constantes mudanças da moeda, aquelas enigmáticas siglas urv. Era autodidata, conhecia muitas coisas; bastante dramático e honesto. Aqui decalco o que encontro numa pasta sua que trago comigo como maior herança: "Fui ameaçado de morte pelo telefone no dia 25 de julho, as 2 e meia da tarde. Disse a pessoa que se eu não renunciasse ao mandato de vereador dentro de 48 horas, eu estava preferindo a morte, e a fala foi de...(...)" Corajoso, disse de quem era a fala. No final, escreveu: "assino-me..." E datou: "Em 28/07/85." Cresci ouvindo-o contar sobre as ameaças de morte que recebia em razão de defender lavradores. Aliás, essa palavra "lavrador" era dita por ele o dia todo, de manhã à noite. Além de uma outra, que não sai do meu juízo, tal o tom de voz em que a pronunciava: "grileiros". E afirmava, com veemência, ser lavrador, mesmo quando já não pegava mais na enxada e discursava na câmara municipal. Era esse meu pai: forte, sem nenhuma doença, vestindo aquele paletó e calça verdes nas festas do Divino Espírito Santo, postado na frente da igreja lotada, conversando com os amigos. Ou então em posição de sentido, tirando retrato na praça recém-inaugurada, perto da placa com seu nome gravado. Tinha orgulho da "vereança" (como mãe pejorativamente denominava), de ter fundado o sindicato dos trabalhadores rurais, e de ter duas filhas: uma linda, desfilando no clube e ganhando o concurso de broto estudantil, e a outra lançando livro, poeta como seus tios repentistas. Esse era meu pai: forte, sem nenhuma doença, com um relógio grande no pulso esquerdo e óculos bifocais nos olhos ternos.

17 comentários:

M. disse...

Estou chorando agora, amiga... Lindo demais... Beijos, M.

Maria Muadiê disse...

O seu pai é lindo. Estou orgulhosa dele.

Edu O. disse...

Que homenagem linda!!

Carlos Rafael Dias disse...

Comovente.

Menina da Ilha disse...

Era meu porto seguro. Passei anos da minha vida com medo de perdê-lo. Até hoje continuo fazendo de conta que ele está viajando e que logo voltará com as minhas encomendas. Assim vou suportando todos esses anos sem o meu amigo,admirador e cúmplice.Com seu texto, quase acreditei que ele não estava viajando, mas enxuguei as lágrimas e entendi que foi só um sonho ruim que vc teve.

Janaina Amado disse...

Abraço apertado!
Saudade de você, Menina da Ilha.

Bernardo Guimarães disse...

se eu já gostava de pai,depois de saber de sua luta pelos trabalhadores rurais, fiquei mais fã ainda.não é a toa que tem as filhas que tem.
beijos nas duas filhas de pai.

dade amorim disse...

Um pai como a gente gosta, não é?
Beijo.

maria guimarães sampaio disse...

adoro as histórias de Pai. Ele era um portento. E você sempre que escreve sobre ele o faz lindamente.

Gerana Damulakis disse...

"Forte, sem nenhum doença" morreu o meu pai e, garanto, é um tormento. Morrer sem ficar doente, morrer bestamente de acidente, é + difícil de aceitar.É mais difícil. Penso muito: do que meu pai morreria? Não sei e jamais saberei. Ele jamais ficou doente! Se um médico me perguntar sobre isso,tentando olhar pela genética que coisas me esperam, o que respondo? Nestes 4 anos, invento doenças para mim, para justificar a barbaridade de uma morte sem doença.
Dor é dor, eu sei, não quero diminuir a sua. Apenas acrescento o meu tormento neste desabafo.

Chá das Cinco disse...

Estou aqui por uma razão, pedir para você deixar no meu blog uma mensagem contra a VIOLÊNCIA no TRÂNSITO, no post " JUSTIÇA".

Sei que o irresponsável e os seus advogados procuram no Google notícias que tenham o nome do autor do crime, essa seria uma maneira de comunicarmos com ele e mostrarmos o nosso repúdio.A violência no trânsito mata mais do que as guerras.
Estou lutando duas vezes, uma contra o poder econômico do criminoso e outra contra o desrespeito as nossas leis.
Conto com a tua colaboração.
Gemária Sampaio

Críticas Criticáveis disse...

Lindo lindo, tb quero sempre lembrar do meu pai assim, forte e saudável...

imonizpacheco disse...

Sua homenagem é comovente.

Marcus Gusmão disse...

O grande relógio no pulso era também uma marca do meu. E, como a Menina da Ilha, desde os 10 anos convivi com o medo da perda. Ele também se foi aos pocuos. Belas lembranças as suas.

Nílson disse...

Belo, belo. Concordo com os demais admiradores dessa longa lista: vc escreve coisas muito belas quando fala de Pai!

Anônimo disse...

(Bino) Lembra de João Bicho D'água? Quando fala em Bino relembro do episódio onde Bicho D'água, depois de ser chacoteado por uma leva de meninos, incluindo eu é claro, encontrou em uma de vocês a presa perfeita, e com um golpe perfeito acertou uma das filhas de Bino. - O que? Em minha filha ninguem mexe. E deu uns catiripapos no Bicho D'água que não tomava banho. Este é o Bino, forte, que defendia os lavradores assim como defendia suas crias.

Anônimo disse...

(Bino), Lembra de João Bicho D'água? quando fala em Bino relembro do episódio onde Bicho D'água depois de ser chacoteado por uma leva de meninos, incluindo eu é claro, encontrou em uma de vocês a presa perfeita, e com um golpe perfeito acertou uma das filhas de Bino. - O que? Em minha filha ninguém mexe. E deu uns catiripapos no Bicho D'água que não tomava banho. Este é o Bino, forte, que defendia os lavradores assim como defendia suas crias.