quinta-feira, 6 de agosto de 2009

essas palavras


Escrever é medicamento.
Jamais semelhante aos que tomava na infância, como, por exemplo, aprilin. Cor de rosa, de uma boniteza que era só enganação: seu gosto me deixava na maior tristeza do mundo, menina acabrunhada num canto com a boca manchada: mãe passava a colherada pincelando meus lábios.
Outro que me marcou foi "o remédio dos carocinhos". Este era maldito: branquelo, disfarçado de coalhada, com um monte de bolinho encaroçado no meio. Eu tinha que enfrentá-lo de uma gole só, com os olhos fechados.
Mas, o pior de todos, pior pior pior era o tal do imosec. Comprimidão grandão, meio esverdeado, descia amargo goela abaixo, acabando com tudo.
Ah, como dói aliviar nossas dores.
Escrever é medicamento que dói menos. Dói quase nada. Parece uma cirurgia mediúnica: de lá tudo é tirado em total silêncio e invisibilidade.
Hoje estou meio adoentada. Essas palavras vêm injetadas em saquinhos de chá, dormitando numa xícara de porcelana, à minha espera, na antiga mesa da sala.



Imagem: "xícara de porcelana" (www.google.com.br)

15 comentários:

Janaina Amado disse...

Ih, se você hoje tá adoentada, isso é sinal que logo vão chegar mais medicamentos como este ótimo texto! :-)

Bernardo Guimarães disse...

que tal chamar um médico? pode falar com o moço lá da livraria, o edilson, que eu prescrevo e entrego a ele a receita sem botar o estetoscópio em vosmicê.assim,meio mediunicamente.

aeronauta disse...

Que lindo, Bernardo! Aceito a consulta.

Marta F. disse...

Aeronauta, gostaria que minha inspiração viesse em saquinhos de chá, nem tomo chá, mas creio na relação estreita da inspiração com os bons hábitos, talvez seja meu grande dilema atual relativizar a esse respeito.

Leio você e vou me curando...

Domingos da Paixão disse...

Realmente Aeronauta escrever é santo remedio. Hoje mesmo desabfei a uma folha de papel branca. a escrita parece mergulhar nossa alma em lago cristalino que renova nossas energias e revigora a vida. Escrever é mergulhar-se nas aguas do alívio.

Gerana Damulakis disse...

Vc tem é que aprontar o próximo livro: este é o remédio necessário. Mais: é urgente!

Maria Muadiê disse...

oi, Aero. vc está melhor? eu também estou meio adoentada, peguei uma virose que está circulando faz tempo onde trabalho.
Ando ôca, sem palavras, sem remédio, como vc é. Ou as palavras me faltam ou troco uma pela outra, ansiando sentido.

Maria Muadiê disse...

tá vendo aí? cometi mas um ato falho! onde se lê "é", é "vê".
pôxa, tomei um susto agora, pois no lugar de onde vc vê, me aprisionei no é, me coloquei sem palavras.

maria guimarães sampaio disse...

Gostei, Aero.
Escrever é remédio. E que remédio. Não sei se viveria na alegria em que vivo se escrever não fosse remédio.

Eliana Mara Chiossi disse...

Florzinha,

é estranho dizer isso...
você sabe que é assim...
aquilo que dói, ainda que ao ler, eu tenha vontade de te oferecer um abraço, vem como uma espécie de cura, pelo seu texto que sendo você, e dizendo muito do que sinto, me responde perguntas que nem sabia fazer.

Te deixo um abraço, então!

Nilson disse...

Ler também é remédio: quando o texto é bão assim, claro!!!

Lidi disse...

Aero? Está melhor? Também acredito que escrever e ler são remédios milagrosos! Um beijo!

imonizpacheco disse...

E o alívio é imediato. Que bom voce ter esse remédio. Melhor ainda para nós que lemos.

Edu O. disse...

já está melhor? eu sempre tive problemas com remédios. e como os tomei!!

aeronauta disse...

Oi, Edu, estou melhorzinha...