terça-feira, 11 de agosto de 2009

somente Kafka


Kafka deveria ter sabido profundamente sobre essa coisa que está aqui. Somente Kafka. Mais ninguém. Como é? Para que saber? Vá rir seu riso mais alegre, que aqui não há espaço pra isso não. Se estou fazendo apologia à tristeza? Que seja. Que o mundo se acabe. Que não estou aqui pra ser seu livro de autoajuda. Estou aqui inteira, com o cabelo horroroso, unhas idem, querendo virar mula sem cabeça. Ria, isso, ria. Quero fazer graça pesada, como desejar a infelicidade alheia. Está com medo de mim? Sou isso, meu bem. Uma praga, erva proliferando dentro de casa, formigas invadindo as estantes. Sou Kafka. Não, Kafka não, senão vai parecer mania de grandeza; sou a formiga mesmo. Buscando legiões de outras formigas para liquidar contigo. Que esse choro cortando meu pescoço é guilhotina no tempo antigo. Gui-lho-ti-na. Cor-tan-do de-va-gar. O choro não sai, apenas o pescoço se afina mais. Na multidão, você me assiste morrer. Você não queria, você faz apologia à felicidade, à harmonia, à esterilidade dos que não morrem, dos que apenas balbuciam, sem gemer.



Imagem: "O insustentável peso do ser", por Thabata Guerra.
(www.flickr.com)

16 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Putz, texto forte, sem nenhuma doença, prenhe de verdade, da grande verdade dos grandes autores. Tome vida, e tome mais. É assim que você, Aérea Persona, tem escrito um dos melhores livros contemporâneos na internet. Literatura sanharol, lavrada em diamantes, afinada de grandeza e brilho, bambúrrio puro. Arrete-se e escreva. Daqui, eu aplaudo e peço mais. Vamos rompendo, assim, da melhor maneira, esse marasmo invernal. Abraços formigais, (carlos)

Maria Muadiê disse...

só urrando, Aero, deixando passar pela garganta fina o grito e não a guilhotina.
um beijo,

aeronauta disse...

Carlos: adorei o "literatura sanharol".
Marta: o conselho é bom.

Lidi disse...

Estou no meio dessas legiões de outras formigas. Um beijo.

P.S: O teu cabelo não é horroroso!

Gerana Damulakis disse...

Carlos já disse tudo. Texto bombástico, é o que resta dizer.

M. disse...

Adoro essa raiva, essa náusea que se torna literatura. Bjs.

Renata Belmonte disse...

Nossa! E depois dizem que não existe grande literatura na Internet...
Maravilhoso este texto!
bjs

Renata Belmonte disse...

Nossa! E depois dizem que não existe grande literatura na Internet...
Maravilhoso este texto!
bjs

Anônimo disse...

Herica

Estou parada, sem palavras.
Bjs

Andréia M. G. disse...

Fico até acanhada de comentar alguma coisa diante de texto tão bom. Só posso aplaudir!

imonizpacheco disse...

Que texto forte!
Peço permissão, mas também sou uma formiguinha nesse grande formigueiro que habitamos.
Menina, quando sai seu livro?

Edu O. disse...

com um grito estrangulado de bravo!

maria guimarães sampaio disse...

Putamerda! Grande texto. Você é demais.
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Repetindo Ivonete, e o livro?

Marcus Gusmão disse...

E o livro?

Menina da Ilha disse...

Misericórdia! Oi eu com medo de tu. Tá parecendo que baixou o espirito do meu "cupade" Lapião...

Nílson disse...

Porradão mesmo: literatura em estado bruto pra estilhaçar vidraças. E há muitas, portanto, ao trabalho! Cada vez mais contente por ser teu leitor!!!