domingo, 7 de outubro de 2007

Borboletas voando pela sala

Eu e meus alunos tivemos, nessa semana, uma experiência excepcional com Francis Ponge e seu "O Partido das Coisas" ("Le parti pris des choses"). Distribuí cada "coisa" para cada equipe: enquanto uma ficou com a descrição que o poeta faz do "pão", outra ficou com "a laranja", outra com "o fogo", outra com a "água", e mais uma com "os prazeres da porta". Eu fiquei com a "chuva". Tão excepcional quanto as descrições maravilhosas que o poeta faz, foi a apresentação deles. Que decodificação visceral! Mais do que verem, tocarem e perceberem a vida de uma porta (claro, não levaram uma porta de casa, utilizaram a porta da sala de aula), eles sentiram que existe uma "ventura" (como diz Ponge) em tocar uma porta, "o corpo-a-corpo rápido pelo qual por um instante o passo se detém, o olho se abre e o corpo inteiro se acomoda ao seu novo aposento". Levaram jarras cheias de água e mostraram o "vício" que Ponge creditou, com mérito, à água: "o vício da gravidade". Segundo o poeta francês, a água "só tende a se humilhar, deita-se de bruços no chão, quase cadáver, como os monges de certas ordens"... porque se encontra "sempre mais abaixo", e "é sempre com os olhos baixos" que a vemos. Agora o mais interessante, além de mostrarem a descrição do pão com "esse frouxo e frio subsolo que se chama miolo" e que "tem seu tecido semelhante ao das esponjas", e de trazerem uma laranja para demonstrarem o quanto esta fruta "é por demais passiva", pois que "seu sacrifício odorante... é entregar-se realmente muito barato ao opressor", além de tudo isso, interessante demais foi a apresentação do fogo. Muito criativos, mostraram, junto com Ponge, o que é realmente o fogo e suas formas. Levaram, claro, papel e fósforo, levaram o fogo de uma vela, levaram centenas de papéis a serem queimados... E mostraram o que Ponge disse: "Só se pode comparar a andadura do fogo à dos animais: é preciso que desocupe este lugar para ocupar aquele outro; caminha a um só tempo como ameba e como girafa, o pescoço à frente, os pés rampantes)..." "Depois, ao passo que as massas metodicamente contaminadas se aniquilam, os gases liberados vão-se transformando numa só rampa de borboletas". Metáfora da fumaça, os alunos mostraram as borboletas, todas voando pela sala e pelo coração da professora... que assistia a tudo isso muito comovida.

6 comentários:

Personagem Principal disse...

E eu adorei o "é preciso desocupar um lugar para ocupar outro". Precisava lembrar dessa máxima fundamental.

Carlos Barbosa disse...

Ser seu aluno deve ser muito agradável e enriquecedor. Abr. Carlos

Renata Belmonte disse...

Que coisa linda! Aeronauta, que vida rica essa sua, não?
Beijos,
Renata

Críticas Criticáveis disse...

Oi linda! Quer dizer q vc faz parte do nosso seleto clã de escorpiões? Eu sou do dia 19, quase não fui escorpião né?
Na minha família somos a grande maioria...Nada como um carnaval né? Bjao! Vc é professora de q?

Luíza disse...

Bom ler o que se passa na tua sala de aula. Dá pra sentir daqui.
Abraços.

canjos disse...

Por obra dEle, tentei entrar em comentários e só hoje apareceu.Tento todos os dias consertar os danos que lhe causei.Às vezes tento tanto que quase cometo os mesmos erros.Como vc sabe as amigas se foram e apesar das diferenças gritantes, hoje vc é a minha melhor amiga.