domingo, 14 de outubro de 2007

O segredo que a vida exala

Este meu nome de batismo aqui - "Aeronauta" - vem da poesia. Da poesia de Cecília Meireles. De um personagem que se parece comigo. E que um dia descobre que não é feliz nem triste, humilde nem orgulhoso, pois não é terrestre:

"(...)
Agora sei que este corpo,
insuficiente, em que assiste
remota fala,
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala.
(...)"

Essa impressão eu tive cedo. Muito cedo. Sei que era o crepúsculo de um sábado chuvoso, estávamos reunidos na mesa de nossa casa na rua da conceição: eu, mãe, pai, minha irmã, um candeeiro e o destino. E a chuva lá fora vinha com um vento que assanhava o fogo do candeeiro. Ali corroía uma atmosfera pesada. Quantos anos eu tinha? Cinco? Seis? Mil? Nessa atmosfera o vento vinha dizer que minha tia havia morrido. O nome dela era Corina. E ela morreu tendo o seu último filho. Que coisa! No dia em que alguém nasce do outro, esse outro morre. Como se a vida fosse a morte e a morte a vida. Não, naquele momento jamais teria tal impressão filosófica, claro. Lembro que tive, isso sim, uma sensação de estranhamento, deslocamento, escuridão. Fomos todos para o povoado onde se encontrava o corpo de minha tia. Chovia forte. Na sala apertada, gente que não acabava mais. Mas minha lembrança está focada mesmo numa cama de pernas estranhas, uma pessoa deitada envolvida num lençol branco, enorme. O aroma, que o vento fazia questão agora de enfatizar, era de um incenso de igreja. E o som era de uma cantoria terrivelmente melancólica e chorosa, proveniente da reza sofrida. Me levaram correndo para o quarto ao lado. Nessa hora só lembro de minha mãe me acompanhando, mais ninguém. E de lá do quarto dava para eu ouvir, bem nítido, o som abafado da dor, e sentir o cheiro forte do incenso, e ver, como numa imagem de sonho, uma efígie sobre a porta onde eu me encontrava. Essa efígie me acompanha até hoje. Não sei o que ela significava, se ela existiu de fato. O que sei é que aquilo tudo doía muito em mim...
No outro dia, um grande silêncio, e a cama de pernas estranhas jogada num quintal vazio, devastado, triste...

Ah, mais uma vez, como eu gostaria de ter sido, desde cedo, uma não-aeronauta, como minha irmã! Ela achou aquilo tudo uma grande novidade. E voltou contando para os amiguinhos que nossa tia morta era tão gorda que teve de ser enterrada em dois caixões.

9 comentários:

Kátia Borges disse...

Adoro seu texto, Aeronauta. Amo tanto Cecília que amo até a filha dela, a atriz Maria Fernanda.

Personagem Principal disse...

Ai, Nauta, desculpa, mas não tive como não dar uma gargalhada com o fim do texto. Sua irmã deve mesmo ser uma figura.

Amei!

aeronauta disse...

Personagem,

Adorei que funcionou: coloquei a parte de minha irmã no final dessa triste história para que todos rissem e não chorassem. Ela é mesmo uma figura. Abraços.

Carlos Barbosa disse...

Tudo isso merece um livro, aérea persona! Abr. Carlos

Críticas Criticáveis disse...

Muito bono!

katherine funke disse...

aeronauta - sua irmã, uma figura; e você, um álbum de figurinhas, aberto no céu, deixando cair uma figurinha por post, para alegrar o coração dos leitores aqui presos na terra firme...

katherine funke disse...

ah, sim, e concordo que tuas memórias merecem virar LIVRO.

Carlos Rafael disse...

Reitero o que o outro Carlos disse
merecemos um livro...

aeronauta disse...

Obrigada, pessoal, por tão belas palavras de incentivo! Abraços a todos.