domingo, 17 de fevereiro de 2008

"Manoel, o filho de Pedro"


Ah, os doidos eternos de minha infância... Como me esquecer de Priquitinha, Pastinha, Lalu, Titia, Mané Besta, Saburi, Louro? Seres diferentes que rondavam a vida das pessoas, estampando, para todos, suas diferenças. Priquitinha sempre com uma blusa "volta ao mundo", azul, bem transparente, como todo tecido "volta ao mundo", andava pela rua o dia inteiro, com passos largos, dizendo e repetindo, dizendo e repetindo: "Maria veve, Maria Veve!" Tinha o cabelo preto e escorrido, partido ao meio. E Pastinha? Este andava com uma pastinha na mão, andando e andando sem parar. Uma vez seguiu eu e minha irmã pelos lados do rio. Lalu era uma doida engraçada, velha e com um sapato preto que ficou conhecido como "sapato de Lalu"; engraçada assim como Titia, que morava embaixo da ponte, vestia umas roupas de plástico e usava pulseiras e colares feitos de canudo. Saburi era vizinho de lá de casa. Gostava dos bilhetes de loteria. Saía com um bolo deles nas mãos, distribuindo para as pessoas. Já Mané Besta, que de besta não tinha nada, andava pelas ruas vendendo cestos que ele mesmo fazia para poder viajar pelo Brasil. Um amigo o encontrou uma vez no carnaval de Salvador e outro amigo o encontrou em São Paulo. Quando estava na cidade, a vida dele consistia em fazer contas nos muros. Fazia milhares de contas e tirava a prova. Números enormes, escritos a carvão. Gostava de desenhar também um coração flechado. E assinava embaixo: "Manoel, o filho de Pedro". Já Louro, filho da velha Rosa, foi contido e preso na Colônia de Feira. Mas fugia e voltava. Levavam novamente e ele fugia. Não sei hoje onde está, ou se está.
Morávamos praticamente numa cidade de doidos. Pai dizia que era a serra que fazia as pessoas enlouquecerem, e que ele um dia iria embora dali. Talvez tivesse medo de enlouquecer, assim como eu também comecei a ter medo disso na adolescência. O que é ficar doido? Inicia-se, será, com uma melancolia que vai crescendo, crescendo, crescendo? Meu Deus, se for assim... Será que a loucura é conquistar, inconscientemente, a terceira margem do rio?
Ah, se isso acontecer comigo, que me depositem numa "canoinha de nada" e me deixem à beira do Rio Gafanhoto - mesmo morto, cheio de mosquitos e crepúsculos perdidos.

3 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Que figura, esse Manoel! Seria professor emérito na maioria de nossas escolas de primeiro grau. Eu, mesmo, não sei fazer essas contas, com prova e tudo mais. Abr. (carlos)

Críticas Criticáveis disse...

Acho q a teoria do seu pai tem um pouco de razão, pq aqui em Petrópolis tem cd figura tb...sei não...essas contas do manoel me fez lembrar d um quadro q vi no MAM d SP q era um monte de contas infinitas, será ele o autor da obra?

aeronauta disse...

É, quem sabe, não é Críticas, já que o dito cujo gostava tanto de Sampa...