sábado, 16 de fevereiro de 2008

A Cidade


A cidade é cortada por várias águas, vários rios. Quantas vezes ficamos ilhados, sem podermos ir a nenhum lugar, com rios e rios enchendo, tomando pontes, entrando em casas, devastando tudo? A cidade poderia ter se acabado nessas grandes enchentes, mas não. Sabíamos, dentro de nós, que isso nunca aconteceria. Sabíamos que, em algum momento, a chuva iria abrandar, os rios iriam voltar a passar não mais sobre as pontes mas embaixo, como é regra universal. E íamos dormir tranqüilos. Eu e minha irmã particularmente felizes pois sabíamos que no outro dia inevitavelmente não haveria aula: a escola estaria tomada pela água... Sabíamos também que a mesma cena, de todos os anos, iria se repetir: Mel chorando na porta de sua casa pois que o rio estava lá dentro fazendo a festa; todos os vizinhos e curiosos olhando e consolando a coitada, e o rio com aquele barulho imenso, feroz, fazendo graça daquele infortúnio que se repetia mais uma vez. Todos os anos o rio fazia essa brincadeira de mau gosto com ela, mas a teimosa não arredava pé de sua casa. Era uma briga vã, dolorosa para ela e engraçada para os curiosos.
Dormíamos e acordávamos com aquele barulhão do rio. Eu, na minha ingênua ruindade de pré-adolescência, gostava muito dessas enchentes. Não ligava se a casa de fulano caiu, se a casa de sicrano tinha sido invadida... Gostava mesmo era daquele clima de livro, clima de cena de romance que a cidade ganhava. E eu e minha irmã acordávamos ouvindo pai conversando na janela com as pessoas que passavam, comentando a chuva e seus estragos. Tomávamos café, íamos para a porta e o que nos esperava era um monte de tanajuras e borboletas e outros bichinhos trazidos pela enchente. Pegávamos nossas sombrinhas e íamos olhar todos os rios, que já não mais trafegavam em cima das pontes mas na beiradinha delas. Quantas vezes passei pela ponte perto de lá de casa e molhei meus pés nas águas do rio que passava... A rua nesse dia ficava movimentada, todo mundo saía para olhar tudo, admirando aquele espetáculo de arrogância e grandiosidade da natureza.
Teve um ano em que a coisa foi mais perigosa. Dois dias inteiros chovendo, ninguém tinha mais passagem para lugar nenhum. O que fazer? Esperar a morte lírica do morrer afogado? Não, seu Netuno, dono do bar da esquina, não queria saber de morte lírica coisa nenhuma. Pegou vários mantimentos, inclusive bolacha creme craker, doces, margarinas, pães, etc, colocou tudo no seu fusquinha amarelo claro, e, junto com tais provisões, a família inteira se apertando dentro do carro... Ligou o motor sobre imensas poças d'água e foram pela praça. Na primeira ponte de saída para outra cidade, o que viram? ÁGUA. Na segunda saída da cidade, a última,o que voltaram a ver? ÁGUA. O rio tinha a altura de um monstro mítico e a voz tão forte que estremeceu toda a família. O que fazer? Seu Netuno, no volante, resolveu... e comunicou à família: "vamos todos voltar, gente, e morrer em casa, junto com as galinhas que já estão mortas no quintal".
Porém, as águas mais uma vez estavam de brincadeira... Logo que eles voltaram para casa, os rios foram se aquietando, se aquietando... a chuva passando... e as borboletas e tanajuras voaram festivas, naquele clima de cena de romance lido nas férias.

3 comentários:

Críticas Criticáveis disse...

Nauta, agora ja posso imaginar tudo com mais clareza, lembra um pouco minha cidade Petropolis, uma vez tb fiquei ilhado, sem saída da serra, é aguniante! Bjusss

Carlos Barbosa disse...

Até parece uma das cidadezinhas montanhosas de Minas...será? Abr. (carlos)

Silvia disse...

Nossa! me afoguei nestas lembranças, vc deveria forçar o povo desta terrinha ler teu blog, é muito bom está contida nesta passagem de rio por baixo e por cima das ponrtes...vc é mais um rio daqui que está de passagem como água e de novo é mais uma enxente que vai tomando forma e sumindo e voltando...