terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sobre os convescotes literários

Por que escrevo?
Todos que escrevem sempre se fazem essa pergunta. E ela não tem uma resposta única e satisfatória. Uma das minhas é... "escrevo por pura necessidade de sobrevivência". E não há nessa resposta nada de romântico, ou falso. Já sonhei, aos vinte e poucos anos, em participar de convescotes literários, publicar mil e um livros, ser lida e aplaudida, viver no meio de escritores. Hoje quero apenas ficar no meu canto, que é melhor. Os convescotes, na maioria das vezes, são frescuras de literatos que sempre falam mal de alguém ausente... ou presente mesmo.
Marques Rebelo era considerado um maledicente. Mas há verdades no que ele diz, a respeito disso, na entrevista que concedeu a Clarice Lispector. À pergunta: A literatura lhe trouxe amigos, além de admiradores?, Rebelo responde: "A literatura nunca traz amigos, no máximo traz alguns simpáticos desafetos."
Hoje sei que, como em todas as instâncias, há na literatura uma política literária, e isso destrói um pouco os sonhos de quem não quer pertencer a nenhum grupo político. De quem apenas quer viver escrevendo, por que senão morre ou fica doido. Vontades de publicar? Claro, quem não tem? Mas quem não entra na política não publica. Até rimou. É como se fosse uma punição pela coragem do isolamento, do não-puxa-saquismo, da timidez. Não, isso aqui não é discurso de ressentida, muito pelo contrário. Já publiquei livros, já lancei, já botei a boca no mundo, já participei de recitais, saraus, o diabo a quatro. Conheci bem esse mundinho, até divertido, vale ressaltar. Mas cansei. Não agüento mais ver, em lançamentos, certas caras de literatos que se acham os maiores do mundo; que lhe olham de baixo para cima farejando em você uma resenha crítica que alguém do sul do país fez sobre sua poesia, e etc. O que também não mais agüento é a autopromoção: eu, eu, eu escrevi; eu, eu, eu publiquei; eu, eu, eu...
Drummond é quem estava certo: para que ir para a Academia? Para tomar chá das cinco e falar mal dos imortais ausentes?
Não me comparo à Drummond, claro, mas resolvi que é melhor mesmo eu ficar no meu canto, escrevendo sob a proteção da Aeronauta... Ela (a Aeronauta) me deu sorte: há sempre alguém passando por aqui para ler o que escrevo. Afinal a gente não escreve apenas para a gente: há o sonho da interlocução nessa coisa de escrever por questão de sobrevivência ou para não ficar doido.

9 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Você escreve e é lida. Isto faz da Aeronauta neste momento uma escritora. Esta ação básica de botar as palavras no monitor para que alguém entenda, sinta e se alimente de idéias, imagens e memórias é realizada no momento em que leio seus textos. Eu e muitos outros que passam por aqui. Claro, o livro publicado é o passaporte para alguém ser chamado de escritor. É a realização material, a expressão física, o, vamos dizer assim, atestado. Mas no que diz respeito a este leitor e você e a outros tantos que que estiverem neste não-espaço e não-lugar a ler os seus textos você é escritora. E isso é relativamente novo. E não é pouco.

Renata Belmonte disse...

O que mais importa nisso tudo é você escrever o que gosta para cumprir a missão da sua própria sobrevivência. O outro(o leitor) tem que estar na sua atmosfera, se permitir esse encontro. Mas são momentos distintos estes, apenas acessórios um do outro. Posso lhe dizer, sem dúvidas, que o que constrói é muito bom. Sua poesia está sempre presente, é única. Até mesmo quando você me escreve como leitora. Aliás, não sei se já disse isso: tenho muito orgulho de ser lida por você.
Bjs

Mayrant Gallo disse...

Prezada Aeronauta, os livros estão com os dias contados... infelizmente. E aí veremos o que acontecerá com esses escritores posudos e politiqueiros, que não escrevem nada de original, que repetem a si mesmos e aos outros. Lúcido e penetrante, seu texto. De invejar, no bom sentido, pois ainda não me tornei (acho) um "daqueles".

Personagem Principal disse...

Concordo plenamente com Marcus Gusmão. Escritor, para mim, é aquele que escreve e isso vc faz muito bem. Não é pouca gente que vem aqui todos os dias e gosta muito do que lê. O que neguinho diz que é ou que deixa de ser por se beneficiar de outras definições, não interessa. Para muitas profissões, o diploma (nesse caso, a publicação) é puro corporativismo. Beijos.

Irmã de Aeronauta disse...

Você nasceu para escrever. E escrever muito bem.Não importa se o livro é publicado ou não.Você escreve por necessidade da alma e não pela outras necessidades.Por isso é tão invejada pelos que precisam de "artimanhas" para serem lidos. Eu disse lidos, porque reconhecidos, eles sabem que jamais serão, porque não têm a nobreza do espírito que faz de você uma verdadeira escritora.Bjos.

Mônica Menezes disse...

Aeronauta, você é grande,admirável.

aeronauta disse...

Puxa, obrigada, pessoal, pelo apoio bonito e sincero. Bjos.

Críticas Criticáveis disse...

Nauta espero q continue escrevendo aqui pq sou seu leitor convicto, adoro! E quer algo mais público q um blog? Bjus Nauta

Anônimo disse...

É Aeronauta, vivemos num mundo de interesses e favores, o quê acontece em Brasília na política, não é diferente do ambiente da literatura baiana atual... Esperamos que alguns poucos heroicos escritores e escritoras, como vc, sobrevivam...
Boa sorte.