segunda-feira, 19 de julho de 2010

cheiros


Sim, já usei desodorante impulse, e esperei um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores. O cheiro do perfume atravessava a televisão e inundava a sala, no comercial mais lindo que minha infância já viu. Talvez vem daí minha fixação por cheiros. Guardo o cheiro de muitas coisas, de pessoas, de momentos, de livros, de tardes mornas. Lembro bem do cheiro de seu rosto, quando o afaguei no escuro, naquela noite que nunca terminou. Do odor de sua roupa, pernoitando sabores escondidos, tão bem guardados que estalava em minha mão a vontade louca de comê-los; sua boca, natureza pura, com aroma de vento batendo nas folhas. Todo o seu ser exalava o cheiro de uma alma esmagada, como o perfume forte das flores mortas. Embriaguei-me, absoluta.
Sim, já usei desodorante impulse, e esperei, lânguida, um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores...


Imagem: "Olfato... em sépia", por Jonycunha.
(www.flickr.com)

10 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

o olfato, meu sentido mais aguçado. minhas memórias estão associadas aos cheiros que me marcaram.

Bípede Falante disse...

Aero, o meu olfato talvez seja, como o do Bernardo, o meu sentido mais aguçado e em que as memórias nunca se perdem. Sinto o cheiro do passado, o do presente e até pressinto o do futuro com ele. Ele me avisa e alerta para tantas coisas. Coisa de bicho, da natureza. Deve ser por causa do meu sangue índio.
Adorei o seu post!

Maria Muadiê disse...

Aero, também sou ligadíssima em cheiros. Nunca usei, mas queria ser aquela mulher do Vinólia, lembra? Com seus cornos pra fora e acima da manada.

Flamarion Silva disse...

A memória dos seus cheiros é excelente, Ângela. Seu texto me fez lembrar de uma memória de cheiro minha, está no meu livro "O pescador de almas(que ainda vai sair):
"Eu era menino e brincava na grama, lembro-me bem a cor e o cheiro desse dia. (...) Não lembra o dia verde e o cheiro de chuva?"
Obrigado pelo espaço para divulgar meu livro.
Beijos

I.Moniz Pacheco disse...

Que post lindo. Não posso usar perfumes, sou alérgica, mas não nego que cheiro é determinante. Cheiro de gente, de corpo. É fatal!
Obrigada pela visita e pelo convite. Já agendei.

Chorik disse...

Martha me fez rir muito agora. Aquela música do Vinólia e ela entrando em cena.
Dizem que o olfato é o mais mnemônico dos sentidos. Pelos depoimentos acima, deve ser mesmo.
O seu texto, aliás, tem cheiro de mulher. Com a devida licença.
Bj

Gerana Damulakis disse...

Bonito, aero, bem poético.

Lidi disse...

Eu também adoro cheiros! Aero, fiquei feliz com tua visita ao meu blogue. Obrigada. Beijo.

Nilson disse...

Isso é impulse: lembrei! Já fico achando que o livro da Aeronauta tem que sair de enfiada, logo depois do de Ângela Vilma!

Banho Veneno disse...

"Todo o seu ser exalava o cheiro de uma alma esmagada, como o perfume forte das flores mortas".Eu sei o que é isso.Linda imagem a de "uma alma esmagada, como o perfume forte das flores mortas". Imagem de uma potência terrível!