quarta-feira, 14 de julho de 2010

uma pergunta


Diz Lula: "Beliscão é uma coisa que dói". Eu bem sei. O que mãe mais sabia fazer em mim era beliscar. Beliscar pra comer, principalmente. Trazia a primeira unha da mão direita bem crescida pra poder beliscar com gosto. O meu braço era o alvo melhor, talvez onde tinha mais carne. Era o lugar mais gordo do corpo. A unha entrava com arte, deixando roxo o local, com a marca. A marca da mãe. Filha marcada a ferro, como se marcam os bois.
Claro, é indiscutível que havia amor em jogo. Como vou colocar agora o amor dela em discussão? Não é disso que estou falando, estou falando dos mecanismos de amar. E a palavra "mecanismo" vem na hora certa: mão beliscando e batendo é algo mecânico, é instinto material. Punição necessária para uma menina que odiava comer, que trancava os dentes e, só a troco de um grande beliscão no braço, abria a boca.
Beliscão dói, é verdade.
E se ela conversasse comigo, me doutrinasse, dissesse que a alimentação é necessária, e que se eu não comesse morreria, etc?
Eu não abriria os dentes, muito menos a boca, tenho certeza. Lá eu iria entender que se eu não engolisse aquela comida maldita eu morreria?
E aí? O que ela faria então?



Imagem: "Maria-sem-vergonha", por Chrismferreira.
(www.flickr.com)

8 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

morreria junto! mãe é mãe.

Flamarion Silva disse...

Esse povo do interior não tinha conversa, não. Quem dizia tudo era o olhar. Um esporro, principalmente em público, era pior que pancada. Cinturadas, me parece, amaciavam o espírito e o gênio. Palmatória, na escola, era bom remédio para o aprendizado, principalmente quando acompanhada com bons puxões de orelha. Essa psicologia me parece que funcionava. Mas não tenho saudade disso, não. Conversar é bom.
Acho que sua mãe fez a coisa certa. Foi o que ela fez e já está feito.
Parabéns pelo livro. Eu vou. Bj.

Flamarion Silva disse...

Esse povo do interior não tinha conversa, não. Quem dizia tudo era o olhar. Um esporro, principalmente em público, era pior que pancada. Cinturadas, me parece, amaciavam o espírito e o gênio. Palmatória, na escola, era bom remédio para o aprendizado, principalmente quando acompanhada com bons puxões de orelha. Essa psicologia me parece que funcionava. Mas não tenho saudade disso, não. Conversar é bom.
Acho que sua mãe fez a coisa certa. Foi o que ela fez e já está feito.
Parabéns pelo livro. Eu vou. Bj.

- Luli Facciolla - disse...

E o que a minha mãe diria também?!

Essa é boa...

Beijo

Gerana Damulakis disse...

Mais cedo ou mais tarde, a criança acaba comendo. Bate a fome e ela come. O que ocorre é que as mães têm uma relação com comida-saúde, que é totalmente errada.

aeronauta disse...

É isso mesmo, Gerana, você tem razão. É o que as mães devem fazer nesse quesito "comida".
Flamarion, te aguardo no lançamento.

I.Moniz Pacheco disse...

Também crescí nesse mesmo sistema embora não concorde com ele. Porém o outro extremo que tenho presenciado é terrível: a criança come o que quer, na hora que quer. E ainda ouço mães dizerem - deixa, se não for assim ele não come nada.

Anônimo disse...

Gosto dos teus recortes da infância, tão cheios de pequenas maldades ricas de muito amor. Seria isso, a lembrança das surras e castigos de nosso vida quando pequenos? Bj! Ricardo Nonato