segunda-feira, 12 de julho de 2010

iniciação


Tinha seis anos e cinco meses quando fiz esse desenho. É uma casa muito engraçada, mas tem teto. Colorido. Briguei com minha colega de carteira por causa disso. Ela dizia que telhado é marrom. Jamais quis saber da realidade, hoje vejo. E a ponta de meu lápis de desenhar nunca era fina, e eu impunha-o com força na página, em tempo de furar o papel. E o meu sol não era amarelo. E tinha uma flor enorme no quintal, solitária, com pétalas verdes. Porém o muro, vermelho, lhe deixava inteira para ser vista. Fálica, desenhei uma banana verde perdida no espaço, assim como o sol marrom, tristonho. Marrom, vermelho, verde e azul: cores do meu mundo. Bola vermelha, não esférica. Apagados, mas com marcas no papel, uma igreja e outra banana e outra bola. Casa com porta e janela, porta e janela, porta e janela, porta e janela. Para que tanta porta e tanta janela, pergunta meu coração. E as igrejas apagadas eram três. E, por fim, tirei dez. Nota que todo ser humano quer: dez. Apagada, mas desenhada com força, perto da igreja também apagada, uma flor: maior de que aquela enobrecendo o muro com as folhas marrons. Percebe-se minhas mãos não adestradas, minhas mãos nada sutis, duras, sobre o papel. Ali eu começava.

10 comentários:

Maria Muadiê disse...

Adorei o título do livro.
beijo

Bernardo Guimarães disse...

vê? desde pequena já sabia fazer a diferença entre um simples desenho e a poesia. a professora, sábia, sacou na hora!
PS.já visitei o blog e reservei meus livros. vera deverá comparecer e abraçá-la por mim.

Bípede Falante disse...

Aero, passei a vida desenhando uma casinha que ninguém guardou para mim.

Gerana Damulakis disse...

Gostei do lance das bananas...
Agora sem brincadeiras: eu fico de boca aberta com tanto talento.
Mas os psicólogos iriam se deter na árvore solitária atrás da casa (pelo menos eu entendi como árvore) porque as árvores dizem muito.

Chorik disse...

O texto, como sempre, irretocável. Antes dos sete e você já se mostrava essa pessoa singular, de plural criatividade. Pela primeira vez vi um sol debaixo da casa. Vou experimentar desenhar assim para minhas netas. Se elas estranharem eu simplesmente direi que moro perto de aeronauta, por sobre as nuvens.
Beijão

Por que você faz poema? disse...

As minhas casas têm muitas portas e janelas. Mas algumas não dão para lugar nenhum.

Edu O. disse...

Eita como tudo é tão bonito vindo de tuas mãos

Lidi disse...

Amei este post. Lindo o teu desenho! E o teu sol, que não era amarelo, me fez lembrar da minha nuvem, que era amarela. Cheguei a brigar, certa feita, com o meu irmão, porque ele pegou o meu desenho - enquanto eu fui ao banheiro - e pintou minha nuvem de azul. Que coisa feia! Fiquei indignada, pois minha nuvem era amarela. Amarela e não azul. Quase meu irmão apanha de minha mãe por causa disso. Claro, eu, a caçula, sempre tive razão. Pena que não guardaram os meus desenhos também. De qualquer forma, sei que eles não chegariam aos pés da tua linda casa, de telhado colorido e muitas portas e janelas. Desde a infância já demonstrava a artista que és. Um beijo, Aero.

I.Moniz Pacheco disse...

Desde cedo demonstrando a poesia, a beleza.

- Luli Facciolla - disse...

Crianças... Essas sim são sábias!
Meu sobrinho outro dia pediu: "Tia, desenha um pato" ao que eu disse não saber. Ele disse simplesmente: "Vc não sabe desenhar pato, só barquinhos"...
E esse só tem 2 anos! Imagina aos 6!

Lindo Nauta! Lindo!

Beijos