quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

oração



No rio vermelho, hoje, minha mãe, cometi o ato mais humano do mundo: furei a fila. O sol estava quente, pegando fogo, e eu não tinha chapéu nem boné e queria também fazer algo errado. Então fiquei com a cara mais abstunta do mundo e entrei no meio da fila quilométrica, na frente de milhões de pessoas que chegaram bem mais cedo que eu. Ainda bem que fiz isso, porque num instantim cheguei aos balaios, realizando logo o trabalho maravilhoso de enviar o perfume alfazema e as quatro rosas brancas que eu levava pra ti. Mais quatro rosas brancas eu já havia, de sobreaviso, colocado ontem, no teu altar, quando eu o arrumei para esse dia...
De peditório, minha mãe, quero a brisa que mandas à tarde pelo vento, a fim de que eu possa refrescar essa quentura que me invade o juízo em noites perdidas. Peço também um pedaço de teu manto, para que eu aprenda a bailar sobre as águas com a coragem decidida dos náufragos.

8 comentários:

M. disse...

"[...] para que eu aprenda a bailar sobre as águas com a coragem decidida dos naufragos". Verso mais lindo. Bjs, moça de Yemanjá.

Por que você faz poema? disse...

Tambem quero bailar
sobre as águas
e sob.

"Havia flores no mar,
havia ondas na areia".

TV SalvadorNews disse...

E aí titia,
JM com cobertura especial sobre a Festa de Iemanjá e sobre o Festival de Verão... Muitíssimo obrigado pela "carona", do contrário, não conseguiria ter publicado a edição e, se conseguisse, ficaria com um assunto a menos!
Muito bom o seu texto e tive a honra de saber antes de todos esta sua atitude errante, de furar a fila...
Bjos de seu sobrinho,
Marcus Vinícius

Lidi disse...

Concordo com M. Que verso mais lindo! Bjs

Isa Correia disse...

Depois desse texto e dessas imagens minha vontade de ir embora para Salvador só aumentou...

Belíssimos versos!
Odoiá!

Marcus Gusmão disse...

Acho que você foi perdoada só pelo "e queria também fazer algo errado". Garato também que ficou atrás dos muitos que chegaram depois e furaram a fila na sua frente.
E grato pela brisa pedida, chegará também, de quebra, para tantos quantos também estejam insones e com o juizo quente nesta cidade. Belo texto, maruja Aeronauta.

Bernardo Guimarães disse...

esta bem que podia se tornar a oração oficial à Inaê.

Nilson disse...

Uma oração, com certeza! Será que essa brisa que sinto agora aqui no Rio Vermelho já é a realização do pedido???