quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

no melhor do mau humor

Enquanto Ivan Ilitch arrumava sua nova casa, esquecia-se da miserável e medíocre vida. Vida medíocre e miserável que nos acorda e nos impõe viver, de qualquer maneira. O que faço todo dia é arrumar uma nova casa, comprar um dvd, um livro novo, dar uma vassourada no quarto, sei lá, para ir vivendo sem pensar em cordas, facas, giletes, ou seja, todo o arsenal de guerra contra a existência. Enquanto isso, a geladeira continua com aquele zunidozinho de continuidade ininterrupta, o ventilador idem, e a rua escurecendo e a rua clareando, e eu tomando banho, e comendo, e dormindo. Pra que peste é isso? Pergunto no melhor do meu mau humor. Pra que peste é isso? Acendem a luz, por favor! O filme que passa é como uma cápsula de remédio na veia, me acalma, e eu até acredito numa espécie de felicidade possível. Mas a burocracia está batendo na porta, tal qual o chefe de Samsa, só porque me atrasei um pouco arrastando minha asa de inseto no chão.

6 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Pois é, Aérea Persona, assunte o que diz o mestre Rosa em "Tutaméia": "Loucos, a ponto de quererem juntas a liberdade e a felicidade". Que tal? Abr (

ideia não tem a(ss)ento disse...

que desfecho!

Bípede Falante disse...

No melhor do mau humor aparece o melhor da aero, que tem as asas de um inseto e também de um pássaro que o come.
beijos

Lidi disse...

"Existirmos: a que será que se destina?" (Caetano Veloso)

Maria Muadiê disse...

te entendo tanto...

Andréia M. G. disse...

No melhor do mau humor, escreve essa preciosidade, imagine no melhor do bom humor que divinas palavras virão. :-)