terça-feira, 1 de março de 2011

canção para todas as mães


"Maria Santíssima!" é a expressão de horror, dela. "Maria valei-me" é coisa corriqueira, sem sustos. Ela não aceitou, até hoje, a minha idade avançando. Ela ainda pensa que tenho seis anos e estou com hepatite, debilitada, no berço antigo de madeira. Ela me deixa triste, quero sua aprovação, mesmo sabendo que irá demorar, talvez por muito tempo ainda. Ela é o meu medo, meu grande medo de ficar viva. Quantas vezes irei segurar na barra de sua saia, na feira, para não me perder? Quantas vezes terei que deixar que ela puxe meus já perdidos dentes de leite? Ainda tenho o mesmo tamanho, mas meus cabelos embranquecem. A natureza perversa me faz tão velha quanto ela, ancestralmente velha, e ela não acredita, não acredita, e é nítida sua descrença.
Enquanto isso, minha infância se prolonga no tempo mítico de seu ventre.

6 comentários:

Nilson disse...

Sinto isso também: a infância se prolongando. Coisa de nossas mães???

M. disse...

Cedo tive que sair da infância para cuidar de coisas de adultos, até para cuidar de adultos, mas jamais pedi um certo ar infantil. Saudades da infância que não tive.

Edu O. disse...

Hj acordei sentindo isso, um medo

Chorik disse...

Pior é fazer da esposa mãe.

maray furnari disse...

senti isso quando morreu meu pai: uma orfandade que só imaginei sentirem as crianças pequenas e não mulher adulta e também mãe, como eu já era. Fiquei pequena, e só.

Lidi disse...

Para minha mãe eu também não cresci. Acho que me verá sempre como uma menina. Mas, para falar a verdade, muitas vezes, me sinto mesmo assim. Bjs